Sobre

Tornou-se lugar comum, nos últimos anos, comentar os  tempos que correm com a alusão a uma célebre praga, alegadamente chinesa: “Que vivas tempos interessantes”. Vivemos, de facto, tempos interessantes, onde tudo que tínhamos enquanto seguro parece evaporar-se no ar. Todos os pactos sociais que sustentaram a partilha da gestão social do capitalismo entre esquerda e direita parecem ruir ante o esgotamento político, económico, ecológico e ético dos dispositivos que regulam a vida nas sociedades capitalistas modernas.

Os tempos são interessantes porque são tempos confusos e ambíguos. Cada vez são menos claros os lados e as facções da guerra civil global em curso, mas, simultaneamente, cada vez é mais claro que uns estão de um lado e outros de outro. Por cada passo que os estados dão em relação à totalização das relações sociais capitalistas, há outros tantos que são dados de êxodo, de recusa e de antagonismo. Quanto mais abjecta se torna a gestão do poder mais radical se torna a deserção de um sistema em colapso, mais urgente se torna a necessidade de superar o desastre em curso.

Diz ainda outro lugar comum que se tornou mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo. Uma observação pertinente, mas enganadora. O fim do capitalismo não é algo a ser imaginado e a depois ser posto em prática, não é uma receita a retirar do pó dos livros para ser ensaiada, não é uma ideia à qual converter o maior número de consciências. Pelo contrário, o fim do capitalismo é algo em permanente ebulição, em permanente reformulação, em permanente antagonismo com o modo como o poder gere e organiza as relações sociais. O fim do capitalismo não é uma inevitabilidade histórica que tarda em chegar, é pelo contrário uma urgência política e vital, latente a todas as formas de vida que cruzam o imenso território do capital. O gesto político de resistência não é necessariamente o gesto da “esquerda”, da “cidadania”, da “participação” ou do “activismo”. É para além disso todo aquele que procura aliados e cumplicidades para neles construir algo que seja mais poderoso do que a exploração e a violência.

A tarefa da produção de conhecimento crítico hoje é precisamente a de identificar e de divulgar as formas de resistência, de luta e de antagonismo que todos os dias emergem dentro e contra o sistema, dentro e contra os processos que tornam a catástrofe em curso num sistema.

A execução desta tarefa não faz de nós um órgão de comunicação social. O que aqui se publica encontra-se nos antípodas de um discurso jornalístico: não se procura obedecer ao esquema da pirâmide invertida, nem se recorre à retórica típica do género. Tampouco se pretende desenvolver um retrato neutro e imparcial da realidade, meio ao serviço da categorização ideológica de determinados fenómenos e acontecimentos. Somos, portanto, exatamente o contrário: um meio de contrainformação que se esforça, em primeiro lugar, por escapar a um modelo pré-definido de escrita (se tal não acontecer, avisem) e que, em segundo lugar, assume uma relação inexorável entre análise e perspetiva política.

Social

Subtitle