Entrevista com o espaço autónomo e anticapitalista Woodbine, de Nova Iorque, sobre a construção de infra-estruturas face e além da COVID-19.

Artigo original e em inglês aqui:

Nos últimos meses, o espaço Woodbine foi contactado por companheiros de Roma, Minneapolis, Praga e Berlim. Todos eles queriam falar sobre as experiências de organização que partilhávamos, o significado de apoio mútuo e sobre como gerir um espaço no meio de uma pandemia. Quisemos publicar algumas das nossas respostas em inglês para assim ampliarmos a discussão e, esperemos, ter notícias de novos companheiros.

O que é o projecto Woodbine? Quais diriam ser as vossas maiores conquistas?

Woodbine é uma experiência que visa construir algo em comum que seja mais que a soma das suas partes; gerir colectivamente um espaço que combina tanto pessoas como prácticas, que se envolve igualmente tanto na vida quotidiana como em política radical. Decidimos criar algo real que pudesse ser totalmente nosso, do qual nos pudéssemos sentir orgulhosos, que pudesse servir como um potencial modelo ou semente para uma forma organizacional adaptável a outras cidades e contextos.  O nosso movimento precisa de exemplos materiais e históricos aos quais nos possamos referir, horizontes positivos para os quais possamos olhar e direccionar o olhar, para assim desenhar ― mesmo que de forma contida, modesta e humilde ― as vidas que queremos viver em conjunto. Apercebemo-nos de que não podíamos simplesmente protestar e manifestar-nos contra todas as coisas que não gostamos no mundo, de que isto já não era gratificante, sustentável ou estratégico. Tentámos então apontar para a construção e manutenção de uma infra-estrutura de uma vida em comum que pudesse crescer, ser partilhada e desejável. Gerir um espaço não-comercial e não-institucional na cidade de Nova Iorque nos últimos sete anos é por si só um feito significativo, feito este que envolveu dezenas de pessoas a colaborar juntas para o manter a funcionar, e ainda milhares de outras que por lá passaram. Woodbine continua a ser a nossa base e ponto de partida.

Em Dezembro de 2013, um grupo de pessoas alugou e restaurou um espaço barato e abandonado há já algum tempo numa rua relativamente calma. Conhecemo-nos em protestos, em projecções de filmes, enquanto andávamos de skate, na escola, etc. Decidimos então construir as nossas vidas em conjunto num dos bairros de Queens, gerir um hub experimental que servisse de base a uma nova forma de nos orientarmos politicamente. Isto deu-se imediatamente a seguir ao movimento Occupy Wall Street e ao furacão Sandy em 2011–12, mas, de maneira geral, politizámo-nos através dos movimentos anti-globalização e anti-guerra dos anos 2000, vivemos o 11 de Setembro e a crise financeira de 2008, de modo que nos sentimos preparados para experimentar algo novo. Woodbine abriu ao público em Janeiro de 2014 com uma série de palestras, dividida em três partes, que se serviam da noção de «Antropoceno» para reenquadrar as questões políticas, sociais, espirituais e éticas da altura. Em Maio desse ano, começámos a organizar jantares semanais ao Domingo ― que continuaram sem parar durante seis anos até terem sido interrompidos pela Covid. Em Janeiro de 2015, ajudámos a construir e a abrir uma livraria e um café ― “Topos” ―, mesmo ao lado do nosso espaço. Nessa Primavera, começámos um jardim comunitário num terreno vazio ao lado do Woodbine, e, no Verão do mesmo ano, começámos um programa de agricultura comunitária [CSA = community supported agriculture]. Ambos os projectos estão ainda em funcionamento. Em Março, criámos um “banco alimentar”[1] [food pantry] de emergência que funciona todas as Quartas e Sextas, e, em Novembro, ao fim de sete anos, mudámos de espaço. Actualmente, o Woodbine encontra-se apenas a uns quarteirões de distância e tem o triplo do tamanho, o que nos permitirá ter novas possibilidades de experimentação e de crescimento.

Como se organizam enquanto grupo?

Woodbine é um projecto que funciona à base de voluntários ― não somos nem uma organização sem fins lucrativos nem uma organização formal, não existe nenhuma entidade legal chamada Woodbine. É uma associação de pessoas, uma associação livre, um colectivo, que gere um espaço comunal em conjunto. No início, todos os custos do Woodbine vinham directamente dos nossos bolsos, o que, por si, foi um processo de auto-selecção considerável para ver quem estava investido e comprometido com o conceito, as prácticas e o espírito do projecto. Volvidos mais de sete anos, Woodbine é as pessoas que continuaram a aparecer, a dedicar-lhe tempo, trabalho, pensamento, dinheiro e cuidado para o manter a funcionar. Tudo isto inclui chegar de manhã cedo para organizar o “banco alimentar”, ficar até mais tarde para fazer os arranjos necessários, estar disponível para lidar com inundações na cave, ficar financeira e legalmente responsável pelas contas, resolver problemas, mediar conflitos, mas também convidar poetas e pensadores para vir aos eventos no nosso espaço, organizar-se com os agricultores locais para trazer alimentos orgânicos para o bairro, escrever e fazer vídeos, e ainda cozinhar uns para os outros todas as semanas. Tudo isto equivale a uma ética que tentamos incorporar como um comunismo vivo e não a questões “políticas” formais. Não são os slogans nem o jargão que nos ajudam a gerir o Woodbine, não é isso que dá vitalidade ao nosso espaço ou à nossa comunidade. O que lhe dá vitalidade terá de ser a experiência vivida ― o que significa que se trata mais do que um mero conjunto de ideias. É essa a base.

Desde Março que nos encontramos numa situação excepcional, pelo que não temos propriamente conseguido fazer encontros ou eventos. Como tal, tivemos de construir relações de confiança apenas mostrando-nos de confiança e marcando presença para enfrentarmos esta crise juntos e de cabeça erguida. Usamos vários grupos no Signal, temos o Slack, o listserv, estamos nas redes sociais, mas a base é a presença pessoal.

Há alguma experiência histórica na qual se inspiram? Como definem os objectivos do Woodbine e quais são as vossas linhas teóricas?

Sentimo-nos inspirados por grupos dos anos 1960, como os Diggers e os Motherfuckers, que organizavam lojas grátis em São Francisco e Nova Iorque, rejeitando a comercialização e profissionalização da contracultura, assim como o dogmatismo e a ortodoxia dos quadros militantes. A transformação necessária que nos permite abordar algo a que possamos chamar de “revolução” é tão espiritual e ética quanto política e económica, de maneira que, para não ficarmos presos, ultrapassados e fora de cena, temos de ser capazes de equilibrar simultaneamente estes diferentes registos. Entre as nossas inúmeras influências, podemos incluir os programas de sobrevivência dos Black Panthers, a clareza e a disciplina consistente do movimento de libertação Curda, a ontologia que serve de fundamento à autodefesa armada da Mohawk Warrior Society, a independência e a desenvoltura da cena punk e hardcore americana, o movimento okupa na Lower East Side, em Nova Iorque, que construiu e defendeu dezenas de jardins comunitários ilegais que até hoje, décadas depois, ainda existem. Todos estes exemplos tiveram os seus teóricos e produziram os seus textos, mas são as suas realidades vividas que nos influenciam.

O Woodbine tem como objectivo construir uma potência colectiva e sobreviver. Queremos mostrar que as formas de cooperação estratégicas e intencionais podem desenvolver tanto as nossas forças e capacidades como tornar as nossa vidas mais saudáveis e desejáveis de viver. Todas estas coisas se reforçam umas às outras, são ferramentas para construir um mundo partilhado em conjunto, mas que, apesar de tudo, não deixam de ser contraculturais, tanto em Nova Iorque como nos EUA, onde dominam o individualismo, o isolamento, a solidão e a alienação.

Como está o Woodbine a responder à pandemia do coronavírus? Quais são as vossas actividades de apoio mútuo e em que sentido vêem o apoio mútuo como uma boa opção política neste momento histórico? Quais são os aspectos mais desafiantes?

Em Março, quando foi declarado o estado de emergência em Nova Iorque, cancelámos os eventos públicos e os jantares semanais no Woodbine. Como alguns de nós ficaram completamente desempregados, ficámos com mais tempo livre e, como ainda tínhamos acesso ao nosso espaço, transformámos o Woodbine num hub de emergência a tempo inteiro cuja primeira função era o “banco alimentar”. Estamos agora no nosso décimo mês de actividade e temos distribuído comida gratuita a mais de mil famílias por semana. Desde então que criámos grupos de trabalho para manter contacto com os fornecedores de alimentos frescos, apanhar os mantimentos e fazer as entregas, distribuir e empacotar paletes de comida a granel que recebemos, tratar das redes sociais e lidar com a imprensa, uma espécie de “relações públicas”, de modo a chamar a tenção e dar maior visibilidade àquilo que temos vindo a fazer e porquê.

Há uma componente de pesquisa no que toca a procurar e disponibilizar recursos básicos para as pessoas, desde outros sítios no bairro onde podem encontrar comida, apoio à habitação, subsídios de desemprego, locais de teste à Covid, informação relativa aos contactos de políticos locais, etc. Na nossa newsletter ― Free Ridgewood ―, que publicámos em inglês e em castelhano, incluímos várias entrevistas com organizadores locais e membros da comunidade. Em Julho, começámos a organizar workshops semanais de máscaras, de maneira a produzir e distribuir máscaras gratuitas e reutilizáveis no “banco alimentar”. Temos também organizado um churrasco mensal para socializar com os nossos vizinhos, incluindo um baile de máscaras de Halloween, e fizemos distribuições especiais de comida no Dia de Acção de Graças, no Natal e na véspera de Ano Novo. Hoje, contamos com a ajudar voluntária de dezenas de vizinhos que aparecem semanalmente no Woodbine, não contando com as centenas de pessoas novas que também se querem envolver com o projecto. Para permitirmos um acesso total a comida gratuita, instalámos um frigorífico à porta do nosso espaço. No meio de tudo isto, temos mantido os nossos programas de agricultura comunitária com quintas biológicas locais ― que já mais que duplicaram de tamanho desde o início da pandemia.

Actualmente, a parte mais difícil é estar constantemente em busca de comida gratuita de forma a acompanhar a procura. Isto implica navegar por entre burocracias de vários programas estatais, organizações de caridade e agências camarárias, ao mesmo tempo que continuamos a partilhar informação sobre recursos e contactos com outros “bancos alimentares” e projectos de apoio mútuo de bairro em toda a cidade de Nova Iorque. A situação económica na cidade e no país piorou, o que também nos afecta a nós todos, obviamente, e os números de Covid continuam a aumentar pelo país fora. Muitos foram embora da cidade, incluindo companheiros próximos. A saúde mental das pessoas tem-se deteriorado. Temos a sorte de ter havido um imenso interesse e energia por parte das pessoas em voluntariar-se naquilo que temos vindo a fazer, mas há uma camada de funções administrativas, de coordenação, networking e de estratégia que também é precisa e, por vezes, é mais difícil encontrar novas pessoas para se envolverem nelas. Ou seja, como conectar os voluntários de bairro numa visão e estratégia política mais ampla e duradoura? Como o Woodbine tem uma história anterior a esta crise, os voluntários e os nossos vizinhos ficaram mais interessados em nós enquanto organização e na maneira como estávamos preparados e aptos para responder a algo como a Covid.

Com o parar da economia ― sem salários que possam pagar as nossas rendas e as nossas contas, sem trabalho que nos permita um acesso a cuidados de saúde privatizados, sem grandes ajuntamentos para fins educacionais ou de entretenimento ―, cada um de nós se viu confrontado com a questão do que é “essencial” na vida. Decidimos então enfrentar em conjunto o desafio do tempo: o que faríamos nós com todo este tempo que temos nas nossas mãos? E como estão os outros à nossa volta a aguentar este momento de ruptura? O “apoio mútuo” tem sido simplesmente uma estrutura que nos permite experimentar estas coisas em conjunto enquanto comunidade: quem iria dedicar o seu tempo a trabalhar para a sobrevivência mútua, como, onde e porquê.

Podem falar-nos do bairro onde vivem? Como é, quem o habita, qual a sua composição social e qual o papel do Woodbine nele? Como é que as vossas prácticas de apoio mútuo afectam a vossa relação com o bairro? Tem havido um aumento de interesse?

Ao longo de todo o século XX, os movimentos políticos e artísticos de vanguarda e contracultura encontravam-se em Manhattan, a ilha central de Nova Iorque. À sua volta estão quatro departamentos: o Bronx, Staten Island, Brooklyn e Queens, e ainda o estado de New Jersey do outro lado do rio Hudson. Manhattan era “a cidade”: era urbana, profissional e intelectual; era também o centro político, financeiro, mediático e cultural, ao passo que os restantes departamentos eram mais operários, mais pobres e com mais imigrantes; eram menos “sofisticados”, menos densos e acabavam por ter menos instituições próprias. Nos últimos 20 anos, a coisa começou a mudar, pois os estudantes, os “criativos” e os jovens profissionais começaram a não mais conseguir pagar para viver em Manhattan, de modo que a geografia cultural da cidade se alterou. Começaram a aparecer novos lugares, espaços e eventos noutras partes da cidade, especialmente em Brooklyn e Queens. Antes de nos termos mudado todos para Ridgewood, alguns de nós viviam a 45 minutos ou uma hora de distância uns dos outros, e tínhamos de percorrer mais ou menos as mesmas distâncias para diferentes pontos de encontro. Queríamos fazer da vida em Nova Iorque algo mais comunal, concentrando os potenciais do que almejávamos fazer em conjunto, o que implicava criar uma densidade localizada própria.

Ao abrirmos o Woodbine em Ridgewood, tivemos de equilibrar o facto de estarmos a gerir um centro cultural e político radical num bairro que não tinha nada que se lhe assemelhasse, enquanto organizávamos projectos comunitários locais para percebermos quem e o que é que já estava a acontecer aqui ― enfim, para construir um contexto partilhado no qual pudéssemos existir. Ridgewood é um bairro em Queens, a cerca de meia hora de comboio de Manhattan. De um lado, faz fronteira com o bairro hip e cada vez mais gentrificado de Bushwick, em Brooklyn, mas, do outro, faz fronteira com os bairros mais suburbanos e conservadores de Queens, como Maspeth, Middle Village e Glendale. Ridgewood é um bairro operário e etnicamente diverso, com imensos proprietários imigrantes vivendo nos mesmos pequenos prédios que os seus inquilinos. Podes ver egípcios coptas, equatorianos, polacos e porto-riquenhos a viver lado a lado numa comunidade relativamente densa com cerca de 70,000 habitantes.

No início desta Primavera, em Nova Iorque, a maioria das pessoas não saía dos seus bairros, não ia trabalhar ou à escola, nem sequer apanhava o metro ou o autocarro ou um táxi. Em termos gerais, isso colocava duas alternativas: ou fazias quarentena sozinho em casa ou saías à rua para fazer trabalho voluntário e comunitário no teu meio envolvente. Foi então que nos vimos mais envolvidos que nunca em Ridgewood, imprimindo flyers para pôr em todos os edifícios e carros aqui à volta, pendurando sinais à porta do espaço e fazendo posts em todos os grupos de Facebook do bairro. A instantânea visibilidade que o nosso “banco alimentar” recebeu, que se alastrou por vários quarteirões da cidade, e a nossa consistência nos últimos 10 meses permitiu-nos criar e construir novas relações e alianças com mais vizinhos que nunca e de uma maneira mais profunda e significativa. Procurámos intencionalmente receber mais cobertura mediática dos jornais de Queens, o que nos colocou no mapa para outras pessoas da zona. No entanto, o nosso modo de organização não tinha como objectivo alastrar-se por toda a cidade ou ser uma base nacional activista-esquerdista. O nosso objectivo explícito focava-se em ensaiar alianças e parcerias que nos possibilitassem receber o máximo de comida possível e para o máximo de pessoas da zona possível. Conhecemos milhares de vizinhos, parte dos quais está directamente envolvida com o Woodbine e no nosso “banco alimentar”.

Sabemos que comunicam com grupos parecidos de outros países e têm visitado os vossos camaradas no estrangeiro. Podem contar-nos um pouco mais sobre o que aprenderam com outros grupos?

Nova Iorque é uma cosmópole global, cerca de 3 milhões de Nova Iorquinos nasceram no estrangeiro, o que torna frequente a presença de realidades políticas que se dão num outro qualquer lugar. Nova Iorque alberga tanto a sede das Nações Unidos como a maior bolsa do mundo. Não há propriamente um lugar que não seja simultaneamente global. Nos meses anteriores ao confinamento, o Woodbine teve apresentações de companheiros que nos vieram visitar da China, de Hong Kong, da Índia, do Irão, do Líbano e da Síria. Para vermos e percebermos melhor as meta-estruturas que compõem a governança contemporânea é preciso termos perspectiva. Sermos capazes de reconhecer o que é partilhado em lugares que à partida parecem ter pouco em comum connosco, perceber aquilo que enfrentam, ajuda-nos a identificar as diferenças e as especificidades das nossas situações.

Nos dias que correm, são várias as questões que pessoas em cidades mundo fora têm de enfrentar: o que significa cooperação e auto-organização quando o teu poiso não é a família, a etnicidade, a religião ou o local de trabalho. Como é que se começa, como é que os desfavorecidos metem dinheiro e infra-estrutura material em comum, como é que se cria tempo para si mesmo ao lado das exigências da economia capitalista. Como é que aquilo que se está a construir pode crescer e perdurar: são estas as coisas que queremos saber e ouvir falar. Há pessoas por todo o lado com experiências para contar.

Viajar sempre foi algo vital para nós. Ver o que outros têm sido capazes de fazer com o seu comprometimento e persistência é uma fonte de inspiração que nos dá força. Temos de ser capazes de traduzir prácticas e conceitos através do tempo e do espaço e encontrar maneira para que novas formas de sociabilidade se possam desenvolver nos ambientes inóspitos nos quais nos encontramos. As pessoas tiveram de se organizar um pouco por todo o mundo de maneira a resistirem a uma assimilação a modos de ser vazios e inertes. Para tal, é preciso a ajuda dos outros, é preciso uma certa teimosia e alguma afirmação. Isto são tudo coisas que recebemos de camaradas de Lisboa a Qamişlo e da Cidade do México a Tunes.

Qual seria o vosso conselho para colectivos com os quais têm afinidades teóricas e que estão agora a dar os primeiros passos?

Pensem nas virtudes que gostariam de alcançar e as quais gostariam de incorporar, pensem nos adjectivos que gostariam de ver associados a uma ética comunal: empática, generosa, curiosa, útil [helpful], de confiança, trabalhadora, ambiciosa, inspiradora, convidativa, aberta, criativa, amigável, humilde, honesta, fidedigna… Sejam eles quais forem, definam objectivos, ensaiem como querem alcançá-los. Sejam honestos com vocês mesmos e com os outros, não tentem concordar sempre em tudo, não deixem que as pressões de se ser “radical” vos impeçam de serem verdadeiros. Encontrem prácticas partilhadas que sejam gratificantes, agradáveis e afirmativas, construam a partir daquilo que empodera os outros à vossa volta. Dêem valor às contribuições e à presença de cada um, especialmente daqueles que aparecem mais cedo, que ficam até mais tarde, que lidam com inundações e ratazanas, que resolvem problemas e medeiam conflitos. Tentem ser mais que a soma das vossas partes, incitem as pessoas a trazer mais que aquilo que levam.

Perguntem-se a vocês mesmos: o que é que seria um aumento na vossa potência e potencial? O que é que vos possibilitaria, a vocês e aos vossos amigos, crescer e tornar-se mais fortes? Pode ser qualquer coisa, um espaço, um website, um carro, um vídeo, um barco, um podcast, um camião, um livro, um financiamento, um prédio, um programa de televisão, uma quinta ou todas estas coisas juntas. Como é que as podem arranjar? Muito provavelmente, terão de coordenar os vossos recursos e capacidades, as vossas energias e redes de contacto, terão de envolver e pôr mais pessoas em contacto e ter a criatividade e o carisma para unir todos esses esforços e prácticas.

Com base na actual situação política, que trajectória esperam da política nos EUA?

Nos últimos 20 anos, a oposição a figuras como Trump e Bush tendeu a subsumir todos os nossos esforços numa resposta Democrática oficial, mas o que é necessário continua a ser o desenvolvimento das nossas próprias alianças, coligações e formas institucionais guiadas pela nossa ética e pelas nossas prácticas. Não nos podemos limitar a formar identidades à volta de sermos militantes anti-fascistas ou comentadores socialistas; precisamos de uma história melhor que conte quem e o que somos. Os desafios que temos à nossa frente são espirituais e técnicos, infra-estruturais e sociais, geracionais e ecológicos, e precisamos de estratégias que abarquem a totalidade daquilo com que nos confrontamos e das quais precisamos para nos libertarmos.

Há décadas que os Estados Unidos estão em declínio, e a Covid veio tornar visível a instabilidade comum enfrentada por dezenas de milhões de americanos. As profundas polarizações provocadas por Trump não vão recuar tão cedo, e este Verão vimos as maiores e mais intensas manifestações anti-estatais dos últimos 50 anos. Há uma falta de confiança generalizada no governo, nos media, na ciência, no sistema educacional e no emprego enquanto lugar produtor de sentido. Mas sem uma alternativa viável, isto resultará apenas em niilismo, apatia e despolitização, permitindo assim que o status quo se mantenha. O sistema político bipartidário dos Estados Unidos, apesar de tudo o que possamos dizer contra ele, permanece hegemónico e a nossa recente eleição presidencial teve a maior percentagem de votantes em mais de um século. Não temos outra escolha que não continuar a organizar-nos, a tornar-nos visíveis e legíveis, conhecer pessoas novas, desenvolver as nossas capacidades e inspirar uma crença que nos permita ver que a vida pode ser vivida de maneira diferente, aqui e agora, enquanto fundamento para sobreviver ao colapso em curso que nos rodeia.


[1] Há uma diferença entre food bank e food pantry. Em termos gerais, o primeiro, normalmente de maiores dimensões, caracteriza-se por se dedicar a levar a comida às pessoas, ou mesmo a food pantries, ao passo que o segundo é o ponto de recolha de alimentos. Não existindo um termo próprio em português, optámos por colocar o termo «banco alimentar» entre aspas. (N. do T.)

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