A protester wearing a face mask marches during a demonstration organised by the Portuguese far-right party Chega in Lisbon on June 27, 2020. - Nearly a thousand people demonstrated in Lisbon at the call of Chega to denounce accusations of racism in Portugal and attacks on the country's colonial past as part of the anti-racist movement sparked by the death by George Floyd in the United States. (Photo by PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP)

ZNM: (Pós)Fascismo, trabalho e precariedade – parte I

Nas últimas eleições legislativas, realizadas em 2019, 67 826 pessoas votaram no Chega, garantindo desta forma a entrada no parlamento de um tipo de nacionalismo pós-fascista, acabando assim com a tão famigerada imunidade do país em relação a estas tendências. O objetivo deste artigo não reside na análise das implicações desta mudança no campo político-parlamentar, constituindo antes um ensaio em torno da relação entre este tipo de ideologia e a questão do trabalho, mais propriamente da precariedade e do seu aumento entre os trabalhadores.

Ao contrário do retrato típico do eleitor destes partidos – homem, jovem, não qualificado, operário, desempregado ou pequeno empresário –, a base de apoio do Chega, a avaliar por algumas sondagens recentemente publicadas, inclui mulheres, pessoas entre os 25 e os 44 anos e trabalhadores com níveis de instrução equivalentes ou superiores ao ensino secundário. O novo partido recolhe igualmente apoio junto de pequenos comerciantes, empresários e empregados de escritório[1]. O Chega parece assim obter maiores intenções de voto entre os «colarinhos-brancos», não tanto entre os «colarinhos-azuis», em relação aos quais recolhe apenas 10% das preferências. Estes dados vêm assim colocar em causa um tipo de argumentação mais simplista (e até classista) que atribui a adesão aos populismos pós-fascistas a uma baixa escolaridade e à suposta ausência de ferramentas críticas passíveis de desconstruir os seus discursos. Inclusivamente, este tipo de fenómeno não é inédito na história dos fascismos.

Os «colarinhos-brancos» e o nazismo

O estabelecimento de uma comparação do eleitorado do Chega com a base de apoio do nacional-socialismo alemão não parte de uma equiparação das forças em causa, nem das condições económicas, sociais e políticas responsáveis pela sua emergência e consolidação. Não só a história não se repete, como a Alemanha da primeira metade do século XX, marcada pela derrota na I Guerra Mundial, pouco tem que ver com a sociedade portuguesa (ou qualquer outra sociedade europeia) dos dias de hoje: basta, por exemplo, pensar no nível de militarização da primeira e na cada vez menor influência desta instituição na segunda. Todavia, existem pontos em comum cujo destaque, a nosso ver, poderá ajudar a uma interpretação do fenómeno em causa.

Poucos dias volvidos das eleições legislativas que viriam a alterar a composição do Reichstag a favor dos nazis, o sociólogo Theodor Geiger publicaria o artigo «Pânico na classe média». Neste, segundo a descrição realizada por Sergio Bologna, o autor identificava na opção pelo Partido Nacional-Socialista um conjunto de temores: «Medo de vir a ter uma consideração menor, medo de perder o prestígio social, por parte de todos: funcionários públicos, filhos de trabalhadores autónomos, empregados de oficina, filhos de operários, trabalhadores autónomos sujeitos a uma mobilidade descendente de classe, militares.[2]»

Este grupo social heterogéneo englobava os segmentos remanescentes da velha classe média alemã, composta por agricultores, artesãos e pequenos comerciantes; os novos empregados assalariados, a maior parte dos quais a exercerem funções no setor dos serviços; e trabalhadores por conta própria e/ou profissionais independentes (os «proletaroides»). Se bem que os meios de produção não se encontravam na sua posse – no caso de proprietários, essa condição pautava-se por uma dependência factual em relação a empresas de maior dimensão –, em geral, auferiam melhores condições contratuais e salariais do que os operários fabris, permitindo-lhes um estilo de vida e estatuto social que, por vezes, pouco se distinguia do auferido pelo patrão, com o qual chegavam a privar.

A crise originada pela derrota alemã na I Guerra Mundial viria a devastar este cenário. Educada para vir a usufruir de uma condição social superior, esta classe vê-se confrontada com o desemprego ou com a diminuição de rendimentos. Ao mesmo tempo, a incessante racionalização instrumental do trabalho não poupava os empregados, envolvendo-os num conjunto de funções pré-determinadas, cujo cumprimento implicava a constante adaptação da pessoa à máquina. Desta forma, os «colarinhos-brancos» vislumbravam em si próprios o abismo que separava as suas expectativas sociais e profissionais da realidade, assistindo passivamente à sua aproximação a proletários: sem grande margem de manobra na execução do seu trabalho, sujeitos a baixos salários e incapazes de preverem o dia de amanhã.

A classe média, na análise do sociólogo alemão Siegfried Kracauer, era «em termos conceptuais, um sem-abrigo»[3]. A indignação e o ressentimento face à proletarização a que era votada conduziam, paradoxalmente, ao afastamento relativamente aos operários e a outros trabalhadores «de baixa condição». Sem quererem ser operários e sem poderem ser burgueses, muito pouco parecia restar aos elementos desta camada social, falida e sem horizontes. Nas palavras de Kracauer, «estas classes são incapazes de experimentar a sua solidariedade com uma comunidade alargada, com o Volk ou a nação, por meio do sindicato, do clube, da classe ou qualquer outro tipo de organização. Elas apenas conseguem experimentar esta solidariedade através de um ideal, de um mito»[4]. Tanto ontem como hoje, esta constitui uma das principais bases do discurso (pós-)fascista. 

Artigo publicado no jornal mapa, n.29, 2020


[1] Magalhães, Pedro (2019). «Quem quer votar no Chega?». Disponível em https://expresso.pt/opiniao/2020-02-15-Quem-quer-votar-no-Chega-.

[2] Bologna, Sergio (2018), The Rise of the European Self-Employed Workforce, Milão: Mimesis International, p. 52.

[3] Kracauer, Siegried (1995). The Mass Ornament: Weimar essays. Cambridge: Harvard University Press, p. 123.

[4] Idem, p. 111.

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