Gigi Roggero: O militante sem qualidades

texto original: https://www.machina-deriveapprodi.com/post/il-militante-senza-qualit%C3%A0

É uma ideia vã aquela de cumprir o dever no lugar que nos foi atribuído; forças enormes são desperdiçadas para nada; o verdadeiro dever é escolher o lugar e dobrar conscientemente as circunstâncias.

Robert Musil, ‘O homem sem qualidades’

0. Retomemos a correta leitura temporal proposta por Lanfranco Ciminiti e Chiara Scaletta. A sua conceptualização começa em Seattle 1999 e Génova 2001, eventos simbólicos e periodizantes para o movimento no global. Ali encerra-se, para um pequeno mas significativo nós, um ciclo: o dos centros sociais. Mais do que isso: encerra-se o ciclo do «Movimento», aquele espaço de organização política que tem as suas raízes próprias na forte anomalia do longo 68 italiano. Entre o «Movimento» representado nos anos 90 pelos centros sociais e o movimento no global há um salto não só espacial, mas de subjetividade e forma de ação organizativa. A geografia dos grupos do «Movimento», herdada no melhor e no pior dos anos 70, esgota-se no emergir de um novo espaço de mobilização.


  1. Esse novo espaço de mobilização apresenta características potencialmente fortes e concretamente débeis. O seu principal elemento é que se abre dentro e contra a globalização capitalista e a unificação do mercado mundial, abrindo fissuras nas certezas e retóricas, trazendo à ordem do dia a questão do conflito social. É o período onde a new economy entra em crise, quando as façanhas e progressos da flexibilidade começam a revelar o lado da precarização da vida e do trabalho. O véu da promessa global capitalista começa a rasgar-se e surge em cena um sujeito global potencialmente antagonista. Este sujeito é multiforme, materializa-se de evento em evento, exercitando a sua força (provavelmente insuficiente e bastante ingénua), esforça-se para se condensar e criar raízes na quotidianidade das relações sociais de produção e reprodução.  Resumindo, não consegue tornar-se classe. Permanece enquanto sujeito líquido, utilizando o jargão próprio daquela época. Ao qual corresponde uma militância líquida. Tanto é que, cedendo à moda anglo-saxónica, o militante cede o lugar ao ativista. O colocar em jogo a própria vida, revolucioná-la coletivamente, dá lugar à boa consciência, que em certos momentos é colocada ao serviço da indústria humanitária, ou até mesmo da institucional. E esta é a sua fraqueza concreta.

2. Ali, dizíamos, esgotou-se o ciclo dos centros sociais e do «Movimento». E não o ter percebido, deixar escalar e não gerir a crise, ter reproduzido artificialmente um cadáver, em vez de dar um fim à persistência terapêutica, é a raiz da nossa miséria presente. Perante o desafio de dar um salto em frente, preferiu-se a tranquilidade da gestão da marginalidade. Por outro lado, nesse espaço de mobilização do movimento no global – falando de Itália – achou-se que daria para agir em continuidade com as práticas, as formas, os tiques e os clichés do ciclo esgotado. O resultado é evidente: incapacidade de enfrentar o problema da organização à altura das possibilidades e das fraquezas acima descritas. Os fóruns sociais rapidamente se tornaram – digamos que o eram logo na sua origem – parlamentos de mediação entre grupos, associações, partidos. Uma caricatura mal conseguida dos sovietes. Esgotado esse espaço de mobilização, terminados os eventos, cessada a efémera fase «no war», as tabernas do «Movimento» pensaram que podiam, finalmente, continuar com a sua normal atividade de administração da existência. Business as usual.


3. Alguns anos depois, em Itália, uma outra mobilização periodizante. A grande fase da promessa do capitalismo global desaba bruscamente: é o tempo da Onda[i], «nós não pagamos a crise». Nas assembleias de 2008 toma a palavra uma geração nova, que alerta para a promessa quebrada, sente que lhe roubaram o futuro e quer que lhe seja devolvido o saque. Para isso não hesita em apelar à meritocracia, se não à legalidade e aos tribunais: se saírem os corruptos poderemos reaver aquilo que nos é devido. Dentro desses comportamentos há uma ambiguidade, concretamente inquietante e potencialmente produtiva, que só com esforço se compreende: certo, perde-se a dimensão estrutural dos processos e recorre-se ao odioso léxico meritocrático; contudo, esta geração individualiza facilmente os seus inimigos e, em certos momentos, age contra eles sem grandes questões. Prevalece, da parte dos militantes, perdão dos ativistas de «Movimento», uma espécie de postura pedagógica em relação aos estudantes, em vez duma capacidade de questionamento. O resultado é uma justaposição dos grupos políticos à composição real, a tentativa de representá-la sem conseguir agarrá-la materialmente. Em Itália, o assim chamado «populismo» – termo inapropriado por várias razões que não queremos aqui debater – nasce precisamente da derrota da Onda. Na medida em que esses sentimentos, esses comportamentos, essas atitudes ambivalentes não encontram uma saída em processos de organização autónoma, tornam-se representáveis numa forma institucional, apesar de caoticamente atípica e por um breve período aberta em várias direções. Daí em diante, dizemos «Movimento» e as pessoas percebem 5 stelle. O outro «Movimento» continua a sobreviver artificialmente agarrado aos cada vez mais desengonçados respiradores dos centros sociais.



4. O assim chamado «populismo», que torna tendência no plano internacional, ocupa os campos deixados vazios: a crítica da globalização, a crise da classe média, o abandono e marginalização dos desempregados e periferias sociais. E leva-os, por vezes, na direção dum mistificado confronto com as elites e substituição destas, ou então na direção tecnocrática ou de inovação institucional – veja-se a mensagem do 5 stelle italiano, mas também do Podemos, que tem outras referências ideológicas e nasce das acampadas espanholas.  O ponto não é acusar os malfeitores dos partidos «populistas» que nos tiraram a transformação para conservar o status quo. O ponto é que não fomos capazes de entrar nas falhas sociais que se abriram na crise e levar esses estilhaços de composição na direção oposta. Podíamos dizer que prevaleceu a tendência mais provável, e é verdade; a questão é que, no entanto, não era a única possível. Afinal, é precisamente aí, no confronto entre probabilidade e possibilidade que se situa o espaço da iniciativa política revolucionária. A crise da militância teve aí a ocasião para dar a volta, para se reinventar.


5. Em Janeiro de 2012, na Sicília, e depois a 9 de Dezembro do ano seguinte em Turim, aparece um movimento estranho, composto por pequeníssimos empresários e desempregados, feirantes e jovens, pessoas das zonas rurais, das cidades e das periferias. São figuras bastante diferentes entre si, têm em comum o facto de estarem fartas de pagar a crise pelos que a realmente criaram (obviamente que não faltam personagens sombrias ou caricaturais, como sempre acontece quando os movimentos são reais). Há quem queira voltar à condição de relativo conforto de antes, há quem esteja chateado porque a esse conforto nunca teve acesso. Noutros tempos, talvez os primeiros tenham explorado os segundos, mas agora sentem-se um pouco do mesmo lado. Chamam-lhe os «forconi», duram bastante pouco tempo, o primeiro movimento que em Itália exprime a raiva duma classe média acossada e rebaixada. Não é uma classe média que queira ocupar-se dos grandes temas idealistas, como o «no war». Está irritada porque mexeram com os seus interesses, mas percebe que para os recuperar é necessário juntar-se a outros e fazer algo para que, quando era classe de mediação e barreira à contraposição de classe, era paga para evitar: lutar. A esquerda italiana, institucional e de «Movimento», rotulou-os de fascistas e objetivamente reacionários. Quando alguns anos depois surgiu um também estranho movimento, desta vez em França, vestidos de cómicos coletes amarelos e que começou a ocupar estradas e rotundas para não deixar aumentar o preço dos combustíveis, os juízes contorceram-se e cada um projetou neles o seu próprio wishful thinking. À distância de segurança dum possível desmentido, toda a fantasia ideológica é legítima e as contas batem sempre certo.


6. O occupy constituiu sem dúvida um ciclo importante, por várias razões que já foram várias vezes descritas e que não vale a pena repetir – não em Itália: o «Movimento» revelou ser uma vez mais um obstáculo. (Os movimentos internacionais de mulheres e, numa dimensão diferente, as mobilizações ambientalistas, merecem debates e aprofundamentos diferentes, a que gostaríamos de dedicar o espaço que merecem.) Contudo, temos a impressão, e não é de hoje, que foram essas estranhas mobilizações a prefigurar as características dos movimentos do futuro dentro da crise permanente. Digamos que formam sinais, antecipam sintomas. Crise económico-financeira, crise social, crise pandémica, crise civilizacional. Crise da classe média, crise da promessa de progresso. Movimentos bem mais que estranhos: ambíguos, sujos, degenerados, marcados pela loucura, abertos a todas as direções. Agrada-nos? Não nos agrada? É irrelevante. Bem-vindos ao deserto do real. Ou antecipamos possíveis tendências de minoria, ou será inútil reclamar o predomínio da probabilidade de maioria. As profecias que se tornam realidade, o «eu tinha-vos dito, meus caros», não são coisas de militante. Se é que estas ainda existam.


7. Chegámos hoje, nestes dias, às revoltas «no lockdown». Não é para fazer a sua crónica, mas para enquadrar a análise. Uma vez mais movimentos estranhos, que escapam às categorias interpretativas a que estamos (claramente em demasia) afeiçoados. «Negacionistas» e «responsáveis», a divisão dos seguidores de esquerda e de direita, interessa pouco ou nada. Com vírus ou sem vírus, perigo de morte ou enfatização mediática, nas praças começam a desembocar pessoas que já não aguentam o clima de medo, que não querem sujeitar-se à chantagem governamental de morrer de covid ou de fome, de morrer de pneumonia intersticial ou de depressão, que pensam que agora estão realmente a tomar-nos por parvos e que estão fartos de pagar os custos da crise, agora até da sanitária. Classe média já rebaixada ou que teme vir a sê-lo, ao lado de precários e desempregados que nunca conheceram o futuro ou já nem se lembram dele, e também jovens a quem tiraram tudo, agora até o bar, o jogo de futebol e o estádio, agora basta. Esta babel social avança e inflama, sobretudo e não por acaso, dentro dos contextos urbanos e metropolitanos. Numa quotidianidade marcada pelo clima e linguagem macabros, rebelar-se é a única forma de viver, de tornar a respirar. We can´t breath: os riots dos Estados Unidos, claramente marcados pelas questões raciais, estarão assim tão distantes destas tensões?

Elencamos pelos menos três perigos a evitar: estetizar a revolta, rotulá-la de fascista ou mesmo reconduzi-la às já gastas coordenadas direita-esquerda, colar-lhes palavras de ordem estranhas à sua composição subjetiva caótica. Pelo menos uma vez, tentemos deslocar-nos radicalmente, concentrar-se na óbvia descontinuidade dos movimentos que irão emergir em relação ao que estamos habituados, evitar um continuismo que é sinónimo de preguiça mental, de auto-defesa dum nicho que hoje em dia é insignificante, de obstinado negacionismo da crise da militância. Desta vez as contas ideológicas e políticas não batem certo, e é aqui que se abre um espaço de possibilidade.

Ainda vamos a tempo? Quem sabe. Em todo o caso, não há grande alternativa que não seja tentar realmente. A não ser que queiramos calcular a possibilidade de reinventar a militância entre os mortos com – sem certezas se de – covid.  Não se trata de consolarmo-nos com as máximas de Mao, de prever se vai acabar tudo bem ou tudo mal. Parafraseando o outro, limitamo-nos a constatar que – quer gostemos quer não – a confusão sob os céus está nas coisas, não nas pessoas que descrevem as coisas. Se a situação será excelente depende de nós, ou pelo menos também de nós. Conquistar o ano zero não significa apagar a nossa história. Pelo contrário, é a decisão subjetiva de fazê-la recomeçar. O nosso angelus novus tem um coração antigo e uns óculos novos.

…to be continued…

[i] Onda foi como ficou conhecido o movimento estudantil que surgiu no Outono de 2008, contra a redução do fundo de apoio financeiro às universidades em Itália, durante um dos Governos de Berlusconi

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