Frédéric Neyrat: Vírus e Separação

«O nosso inimigo é o separatismo», declarou recentemente o presidente Macron – mas que separatismo, exactamente? O dele? O biopolítico, imposto para deter o coronavírus? Ou aquele que germina numa viralidade cada vez mais obscura, mais terrível para os governos que têm como missão administrar a extinção ecológica em curso?

«O nosso inimigo é o separatismo», declarava recentemente o presidente Macron[1]. Ao ouvi-lo definir o separatismo como «vontade de sair da República, de não respeitar mais as regras», de «sair do campo republicano» em nome de certas «crenças», fomos inúmeros os que pensaram que Macron falava de si próprio e já não dos muçulmanos, através do famoso mecanismo da projecção, um sistema de defesa psicológica primitivo que nos permite atribuir a um outro aquilo que queremos negar em nós mesmos. Porque o La République en Marche! surgiu claramente como o partido daqueles que estão separados dos outros, do povo, dos refugiados, da realidade climática, e que estão mais interessados na futura privatização do sistema de pensões do que nas leis da República. Acrescente-se que cegar manifestantes com tiros de LBD[2], obrigar adolescentes a ajoelharem-se com as mãos sobre a cabeça em Mantes-la-Jolie, ou deter aqueles que se preocupam com o seu futuro e invadem a sede da multinacional BlackRock, não parece relevar do respeito pelas leis da República, a não ser que as entendamos como um processo de mutilação psíquica e física.

Trata-se de um separatismo vindo dos de cima, fundado no desdém e na violência, que hoje tem lugar não apenas em França, mas também em todos os países cujos governantes acreditam mais na capacidade de enriquecer as suas famílias ou a indústria petrolífera do que em qualquer cenário que se aproxime de uma travagem da aceleração climática. Mas este separatismo dos de cima, denegado, deve agora confrontar-se com um fenómeno que revela a sua lógica com toda a claridade: o dito coronavírus. Porque as medidas prescritas pelos governos francês, italiano ou chinês exigem precisamente uma separação: não podem fazer ajuntamentos, não podem sair de casa, não podem tocar-se, têm de lavar as mãos ferozmente – virá o tempo em que nos pedirão para nos separarmos das nossas mãos de modo a não infectarmos a cara, em que dirão para não pensarmos demasiado para evitarmos que se escape uma suspeita de verdade, e que não usemos nunca mais palavras não esterilizadas. Eis uma forma de separatismo já não denegada mas antes exigida, um separatismo da sobrevida e do medo, de certa forma um separatismo rasteiro, relegado para baixo, para o confinamento imposto.

Separatismo da sobrevida, será mesmo? Mas como explicar, desde logo, a desproporção entre a perigosidade desse vírus – com uma taxa de mortalidade bastante baixa[3] – e a paranóia global em torno dele? Para quem tem ainda presentes as análises de um Baudrillard, não há espanto nenhum: é a própria globalização que é viral, que tende a transformar todos os fenómenos – atmosféricos, sociais, tecnológicos – em agentes que se replicam por toda a parte e a toda a velocidade, Mr. Smith sem limite (à imagem do programa que se replica e transforma tudo em Mr. Smith na famosa trilogia The Matrix). E o coronavírus é a globalização coroada (em latim, corōna significa coroa), propagando-se soberanamente, ameaçando menos a vida – há que ter bom senso aqui – do que a capacidade de erradicar a globalização (perigoso mais pela sua forma viral do que pelo seu fundo de vírus). Triste coroa, é certo; mas infelizmente continuamos a eleger reis.

Com a globalização a continuar a impor-se até junto dos nacionalistas, alguns governos tentam aproveitar-se da situação para gerir os seus problemas internos, utilizando o coronavírus como instrumento de globalização do «estado de excepção», de modo a limitarem as liberdades colectivas[4]. É verdade que, quando chegar o colapso climático, os Estados enfrentarão um perigo: não convém que se tornem evidentes o separatismo dos de cima, o desprezo pelos povos e a tentativa das elites de se protegerem o mais longamente possível dos efeitos da destruição do ambiente. Uma evidência desta dimensão arriscaria gerar um separatismo político com fito revolucionário, e é esse separatismo, não de cima nem de baixo, mas colectivo, terrestre, com vocação planetária, que poderá assustar os governos – porque ninguém acredita, salvo elucubração de extrema-direita ou angústia católica, que o suposto separatismo muçulmano possa vir a dar numa tomada do poder em França.

Devemos, então, pensar em três separatismos: um, denegado, é o das instâncias de poder, o separatismo dos de cima; outro, reconhecido e institucionalizado, é aquele que a epidemia do coronavírus torna possível, um separatismo de controlo «biopolítico, como se dizia há não muito tempo; esses dois separatismos têm como inimigo mortal um outro que não pode surgir em caso algum, o separatismo gerado pelo vírus político da Grande Recusa. O coronavírus poderia, é certo, superar as tentativas de confinamento impostas pelos governos, mas não acreditemos nem por um instante que a civilização termo-industrial poderia ser afectada: só a viralidade política que não pactua com a ordem do mundo, com a sua globalidade apanicada ou a sua localidade imunológica, será capaz de contestar os alicerces da Sexta Extinção. É ao separarmo-nos daquilo que nos destrói que aprendemos a unir-nos – livres da necessidade de sobreviver, em nome do desejo de viver.


[1] AFP, «”Notre ennemi est le séparatisme”, declare Macron à Mulhouse», 18/02/2020 (https://www.youtube.com/watch?v=63sWpkn1OAk).

[2] LBD significa «Lanceur de balles de défense» (lança-balas de defesa). Consiste numa arma, classificada como «subletal», amplamente usada pelas polícias francesas na repressão de manifestações e distúrbios públicos em «Zonas Urbanas Sensíveis» nos últimos anos. São conhecidos dezenas de casos de cegueira de um dos olhos provocada pelo uso desta arma nas respostas às manifestações dos Coletes Amarelos. (N.d.T.)

[3] Ver, por exemplo: https://abcnews.go.com/US/coronavirus-compares-sars-mers-recent-viral-outbreaks/story?id=69329364.

[4] Cf. Giorgio Agamben (https://acta.zone/giorgio-agamben-coronavirus-etat-dexception/) e a resposta de Jean-Luc Nancy (https://antinomie.it/index.php/2020/02/27/eccezione-virale/).

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