A economia ou a vida

“Então, cá estamos nós, numa encruzilhada: ou salvamos a economia ou nos salvamos a nós mesmos; ou saímos da economia ou deixamo-nos alistar no ‘grande exército da sombra’ dos sacrificados de antemão”[1].

Não conseguem ver, não conseguem todos ver, conferencistas, que somos nós que estamos a morrer, e que a única coisa que realmente aqui vive é a Máquina? Nós criámos a Máquina para que ela cumpra e realize as nossas vontades, mas não podemos mais fazê-la ceder à nossa vontade. Ela roubou-nos o sentido do espaço e o sentido do tacto, distorceu todas as relações humanas e reduziu o amor a um acto carnal, paralisou os nossos corpos e as nossas vontades, e agora obriga-nos a adorá-la.”

E. M. Forster, The Machine Stops (1909)

Nem tudo é dissimulado na comunicação oficial. No meio de tantas mentiras desconcertantes, por vezes, os corações dos governantes de hoje estão visivelmente apertados, e tal acontece quando explicitam o quanto a economia está a sofrer. Os idosos estão a ser deixados sufocar em casa para que não entrem nas estatísticas ministeriais ou para que não façam sobrelotar o hospital, certo, certo. Mas deixem uma grande empresa morrer e eles sentem as gargantas apertadas. Eles correm em seu socorro. Claro, morre-se por toda a parte de insuficiência respiratória aguda, mas não devemos deixar a economia ficar sem oxigénio. Para ela, nunca faltarão respiradores artificiais. Os bancos centrais providenciam. Os governantes são como aquela velha burguesa que, enquanto um visitante agoniza na sua sala-de-estar, tem arrepios, suores frios, ela está preocupada com as manchas no seu soalho. Ou como aquele especialista em tecnocracia nacional que, num recente relatório sobre segurança atómica, simplesmente concluía que: “a principal vítima de um grande acidente nuclear é a economia francesa”

Perante a tempestade microbiana presente, anunciada mil vezes a todos os níveis governamentais desde o final dos anos 90, perdemo-nos em conjecturas sobre a falta de preparedness dos líderes. Como é possível que faltem a este ponto máscaras, toucas, camas, pessoal médico, testes, remédios? Porquê estas medidas tão tardias, e estas súbitas inversões de doutrina? Porquê estas injunções tão contraditórias – confinar-se mas ir trabalhar, fechar mercados mas não os grandes supermercados, parar a circulação do vírus mas não as mercadorias que o transportam? Porquê dificultar tão grotescamente a administração de testes massivos ou de um medicamento manifestamente eficaz e barato? Porquê a escolha do confinamento geral em vez da detecção desujeitos doentes? A resposta é simples e uniforme: it’s the economy, stupid!

Raramente a economia se mostrou tão bem como aquilo que é: uma religião, se não uma seita. Uma religião é, afinal de contas, apenas uma seita que tomou o poder. Raramente os governantes terão aparecido tão declaradamente possuídos. Os seus apelos lunáticos ao sacrifício, à guerra e à mobilização total contra o inimigo invisível, à união dos fiéis, os seus incontinentes delírios verbais que já não envergonham nenhum paradoxo, são os de uma qualquer celebração evangélica; e eis-nos, intimados a suportá-los, cada um frente ao ecrã, numa crescente incredulidade. A peculiaridade deste tipo de fé é a de que nenhum facto é capaz de invalidá-la, antes pelo contrário. Longe de condenar o reino da economia mundial, a expansão do vírus é mais a ocasião de realizar os seus pressupostos. O novo ethos do confinamento, onde “os homens não retiram prazer algum da companhia uns dos outros (e sim, pelo contrário, um enorme desprazer)”, onde cada um considera qualquer um, desde a sua estrita separação, como uma ameaça à sua vida, onde o medo da morte se impõe como fundamento do contrato social, realiza a hipótese antropológica e existencial do Leviatã de Hobbes – Hobbes que Marx considerava como “um dos mais antigos economistas da Inglaterra, um dos filósofos mais originais”. Para situar esta hipótese, vale lembrar que Hobbes divertia-se ao dizer que a sua mãe o pariu sob o terror causado por uma tempestade de trovões. Nascido do medo, ele logicamente via na vida nada mais do que o medo da morte. “Problema dele”, ficamos tentados a dizer. Ninguém é obrigado a conceber esta visão doentia como a base da sua existência, e muito menos de qualquer e toda existência. Porém, a economia, seja liberal ou marxista, de direita ou esquerda, dirigida ou desregulada, é uma doença que se propõe como fórmula de saúde geral. Nisto, ela é de facto uma religião.

Como o amigo Hocart observou, nada distingue fundamentalmente o presidente de uma nação “moderna” de um chefe tribal nas ilhas do Pacífico ou de um sumo pontífice em Roma. É sempre uma questão de fazer todos os ritos propiciatórios capazes de trazer prosperidade à comunidade, reconciliá-la com os deuses, poupar-lhe a sua ira, garantir a unidade e impedir que as pessoas se dispersem. A sua razão de ser não é coordenar, mas presidir ao ritual (Rois et courtisans/ Reis e cortesãos): é de não perceber isto de que é feita a imbecilidade incurável dos líderes contemporâneos. Uma coisa é atrair prosperidade, outra é gerir a economia. Uma coisa é fazer rituais, outra é governar a vida das pessoas. O quanto o poder tem uma natureza puramente litúrgica, eis o que comprova, o quanto baste, a sua profunda inutilidade, até mesmo a actividade essencialmente contra-produtiva, dos governantes de hoje, que não conseguem ver a situação senão como uma oportunidade sem precedentes para ampliarem desmedidamente as suas prerrogativas, e para se assegurarem que ninguém vem tomar o seu trono. Perante a calamidade que se abate sobre nós, é preciso que os líderes da religião económica sejam os últimos idiotas em matéria de ritos propiciatórios, e que esta religião não seja afinal nada mais do que uma danação infernal.

Então, cá estamos nós, numa encruzilhada: ou salvamos a economia ou nos salvamos a nós mesmos; ou saímos da economia ou deixamo-nos alistar no “grande exército da sombra” dos sacrificados de antemão – esta retórica tão à 1914-18, não deixa absolutamente nenhuma dúvida sobre este ponto. É a economia ou a vida. E como estamos perante uma religião, trata-se mesmo de um cisma. Os estados de emergência decretados em toda parte, a infinita extensão das medidas policiais e de controle das populações já em funcionamento, a remoção de todos os limites à exploração, a decisão soberana sobre quem salvamos e quem deixamos morrer, a apologia descomplexada da forma de governar chinesa, não procura a “salvação do povo”, mas prepara antes o terreno para um sangrento “retorno à normalidade”, ou melhor, o estabelecimento de uma normalidade ainda mais anómica do que aquela que prevalecia no mundo antes. Neste sentido, por uma vez, os líderes não estão a mentir: o depois decide-se mesmo agora. É agora que o pessoal médico tem de recusar qualquer obediência àqueles que os lisonjeiam, sacrificando-os. É agora que devemos arrancar às indústrias da doença e aos especialistas da “saúde pública” a definição da nossa saúde, da nossa grande saúde. É agora que devemos criar as redes de ajuda mútua, abastecimento e auto-produção que nos permitirão evitar sucumbir à chantagem da dependência com que tentarão redobrar a nossa escravidão. É agora, a partir desta prodigiosa suspensão que estamos a experienciar, que temos de descobrir tudo aquilo cujo regresso devemos impedir e tudo o que precisaremos para viver para além da economia. É agora que devemos nutrir cumplicidades capazes de limitar a vingança sem pudor de uma força policial que se sabe odiada. É agora que precisamos nos ‘desconfinar’, não por mero desafio, mas pessoa a pessoa, com toda a inteligência e atenção que convém à amizade. É agora que devemos elucidar a vida que queremos – o que esta vida exige de construir e destruir, com quem queremos viver e com quem já não queremos viver. Não há care [cuidado] para os líderes que se armam para a guerra contra nós. Nada de “viver juntos” com aqueles que nos deixam morrer. Não haverá nenhuma proteção a premiar a nossa submissão; o contrato social está morto; cabe-nos inventar outra coisa. Os governantes actuais sabem muito bem que, no último dia do confinamento não teremos outro desejo senão o de ver as suas cabeças rolarem, e é por isso que farão o possível para impedir que tal dia chegue, para atrasar, controlar e diferenciar a saída da quarentena. Cabe-nos a nós decidir quando este momento e em que condições irá acontecer. Cabe-nos a nós dar forma ao que se segue. Cabe-nos a nós traçar os caminhos técnico e humanamente viáveis para sair da economia. “Levantamo-nos e bazamos” (“On se lève et on se casse”)[2], disse uma desertora do prémio de literatura francês Goncourt, não há muito tempo. Ou para citar um economista que tentava desintoxicar-se da sua religião: “A ganância é um vício; extorquir lucros usurários é uma contravenção; o amor ao dinheiro é detestável; andam mais seguros nos caminhos da virtude e da sabedoria, aqueles que menos se importam com o amanhã. Prevalecerão os fins sobre os meios, e preferiremos o bom ao útil. Faremos honras àqueles que nos ensinam a aproveitar a hora e o dia, de uma forma virtuosa e boa, as pessoas encantadoras que sabem desfrutar imediatamente das coisas, os lírios do campo que não tecem nem rodam” (Keynes).

texto original: https://lundi.am/L-economie-ou-la-vie


[1]          NT: Alusão ao apelo feito na semana passada pelo ministro da agricultura francês, dirigido às pessoas que ficaram sem trabalho, para se juntarem ao “grande exército da agricultura francesa”.

[2]    NT: A escritora é Virgina Despentes.

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