Ajuda mútua, distanciamento social e dupla potência no estado de emergência

por Woodbine[1]

A crise viral transformou-se numa crise geral de reprodução social sem um fim à vista. Com o encerramento de empresas, escolas e inúmeras outras instituições, milhões estão a enfrentar a perda de rendimento, habitação e acesso a recursos básicos de sobrevivência, exacerbando as desigualdades de longa data e levando cada vez mais pessoas à precariedade. Confrontados com a pressão popular e o espectro da agitação civil, os estados começaram a empreender um “socialismo de desastre” de medidas de apoio desiguais e muitas vezes contraditórias. Ainda assim, as condições de emergência estão a intensificar-se a cada hora e o actual regime biopolítico enfrenta uma crise existencial.

Sob tais circunstâncias, a necessidade de infra-estruturas auto-organizadas de apoio mútuo, cuidados e resiliência não poderia ser mais óbvia. Com a perspectiva de greves de pagamento de rendas e outros actos de recusa colectiva no horizonte, como podemos imaginar um trabalho de apoio mútuo que nos remeta para a construção de uma situação de dupla potência nas próximas semanas e meses? À medida que o sistema entra em colapso, como podemos construir bases de autonomia e solidariedade que transformarão o nosso relacionamento com o Estado?

Em Woodbine, um espaço com uma estrutura e organização autónomas que mantemos na cidade de Nova Iorque desde 2014, estamos a preparar-nos para isso para mobilizarmos as nossas redes,  conhecimentos e energia para coordenarmo-nos e cuidarmos uns dos outros, enquanto construímos simultaneamente a capacidade a longo prazo de enfrentar o futuro.



Aproveitando o tempo

Na sexta-feira passada, Sandy Nurse, co-fundadora do MayDay Space em Bushwick e actual candidata ao Conselho da Cidade de Nova Iorque, twittou: “Pessoal do movimento: sabemos como nos mobilizarmos de maneira rápida e eficaz. Está na hora de entrar em formação. Iniciem agora as conversas nas redes locais/sociais sobre a colaboração de como deve ser o apoio directo seguro, e como se pode expandir e desenvolver a colaboração entre bairros”. Partilhámos o post nas nossas plataformas online e recebemos respostas imediatas de amigos e estranhos que tentavam colaborar. Embora a gravidade desta crise seja sem precedentes na memória recente, muitas pessoas parecem preparadas para o momento, como se estivessem à espera que ele chegasse.

Enquanto escrevemos, organizadores experientes e vizinhos recém-activos estão a participar numa vertiginosa inundação de coordenação online, desde posts nas redes sociais até ao Google Docs, de reuniões no Zoom a mensagens no Signal. Ontem mesmo, um Google Doc intitulado “Mutual Aid NYC” migrou para o seu próprio site, onde centenas de pessoas estão a planear assistência mútua autónoma e apoio à catástrofe numa lógica local, caso a caso. Desde guias de recursos online até algumas “dicas” nas redes sociais, há muitas informações sobre como navegar na actual crise. No entanto, permanecem dúvidas sobre quem, como, quando e onde essas chamadas serão atendidas.


À medida que essas comunicações online se desenvolvem, devemos abordar a questão do contacto na vida real e do espaço físico, juntamente com os seus dilemas éticos, médicos e logísticos. Embora reconheçamos a urgência de medidas de “distanciamento social”, como podemos impedir que elas se tornem ferramentas de desmobilização política? O que significa normalizar a quarentena como uma condição necessária durante a emergência? E quais são as nossas expectativas quando se trata de respostas do Estado?



Separados, Juntos


Há uma longa história de apoio mútuo radical que vincula o fornecimento de serviços à construção da dupla potência. Na história radical de Nova Ioque, isso inclui movimentos como as Black Panthers, os Young Lords, ACT-UP e Occupy Wall Street. Nos últimos anos, surgiram várias formações descoloniais e abolicionistas que envolvem ajuda mútua, entre elas, Take Back the Bronx e NYC Shut It Down, que já estão a desenhar o seu programa Feed the People (FTP) em resposta à crise. Essas tradições radicais existem ao lado de actividades informais de interdependência, cuidado e apoio que muitas comunidades já praticam no dia-a-dia e que agora estão a ser activadas de forma mais deliberada.


A experiência local do furacão Sandy também deve ser mencionada aqui, pois a resposta imediata revelou os potenciais e os limites de um momento de crise como o presente. O Occupy Sandy era uma infra-estrutura em toda a cidade de pronto-socorro auto-organizado, que surgiu após o furacão atingir Nova Iorque em 2012. Alguns sugeriram que este oferecia um vislumbre prefigurativo do “comunismo de desastres”. No entanto, também se poderia argumentar que a função principal do Occupy Sandy era a de um provedor de serviços suplementares dentro do vazio deixado pelo Estado, e que nunca foi capaz de se transformar numa formação política sustentada capaz de forçar concessões da classe dominante. Na melhor das hipóteses, demonstrou capacidade colectiva de enfrentar directamente uma catástrofe e foi crucial para relacionamentos, projectos e espaços na década subsequente incluindo o próprio Woodbine.

Compreender os legados e continuidades da ajuda mútua é crucial para agir no momento actual. No entanto, nenhum de nós enfrentou a condição surreal do distanciamento social. O que significa organizarmo-nos na vida real agora e quais são as nossas expectativas de segurança e responsabilidade?

Sabemos que existem organizadores experientes e confiáveis à nossa volta e também sabemos que existem estruturas e relações de organização adormecidas que precisam de ser revividas e reactivadas. Sabemos que precisaremos de compartilhar conhecimentos e práticas com grupos em todo o país. Existem muitos outros por aí em casa, online, a querer ajudar, ser voluntário, contribuir -, com capacidades, conhecimentos e recursos que mal imaginamos. Haverá a necessidade não apenas de prover os nossos amigos, mas também os nossos vizinhos e membros da comunidade. E precisaremos de interfaces para podermos comunicar com eles, para além dos nossos ecrãs e das nossas bolhas nas redes sociais.


Em algum momento, precisaremos de estar juntos, pessoalmente. A base para a recuperação compartilhada das crises actuais e futuras exigirá que vejamos os rostos uns dos outros, escutemos as vozes uns dos outros e toquemos as mesmas superfícies. Quais serão os espectros de risco e quais serão as melhores práticas e directrizes de protecção para a interacção física quando ela ocorrer?

À medida que a crise se intensifica, as necessidades aumentam e o conflito político se torna inevitável, teremos que enfrentar essas questões. Teremos de ser solidários e aprender com os trabalhadores dos serviços e indústrias “essenciais”: enfermeiros e médicos, condutores de comboios e motoristas de autocarros, trabalhadores de mercearias, cozinheiros e pessoas que entregam comida em casa, trabalhadores de saneamento e muito mais. Como abordaremos a distribuição física de recursos, reuniões públicas e até mobilizações de rua? Assumindo que as medidas de alívio de iniciativa estatal serão provavelmente acompanhadas por formas intensificadas de policiamento e militarização, como podemos enfrentar a necessidade futura de legítima defesa colectiva? Como se relacionarão os movimentos com os espaços que foram fechados e desocupados, os espaços que se esvaziam como conchas vazias ou que funcionam apenas em serviços mínimos hotéis, dormitórios, condomínios de luxo, escolas, igrejas, museus e tudo o que possa ser reaproveitado para atender às necessidades colectivas? Ao pensarmos em tais cenários, também sabemos que as condições extraordinárias dessa crise provavelmente darão origem a novas tácticas, técnicas e formas que não podemos imaginar actualmente.

De armas e bagagens

Em Woodbine, estamos a fazer estas perguntas como uma questão de práxis imediata, enquanto decidimos como, se, e quando activar o nosso espaço como um centro de infraestrutura dentro da crise, que persistirá para além do período actual de isolamento. Isso exigirá a construção de relacionamentos e de confiança, para encontrar e criar colaboradores fiáveis que possam avaliar os riscos e as capacidades de si próprios e dos outros. Estamos a pedir às pessoas que pensem seriamente sobre o que o tempo exige.


Os vizinhos já entraram em contacto connosco sobre como iniciar uma despensa de alimentos com base em necessidades que se intensificaram com a perda de salário e o fechamento de escolas. Fizeram-nos uma lista com sugestões: sacos de arroz, feijão enlatado, molho de tomate, massa, pão para congelar, sabonete, manteiga de amendoim e doce, hummus, manteiga de amendoim, waffles e xarope, ovos, leite em caixa, sopas enlatadas, legumes e sumos congelados, aveia e cereais. Os nossos amigos começaram a distribuir máscaras e a produzir desinfectante para as mãos.


Enquanto escrevemos isto, uma organização de resposta da comunidade local chamada Hungry Monk está a distribuir produtos frescos gratuitamente, do lado de fora de uma igreja local em Ridgewood. Também discutimos a manutenção de Woodbine como um local de recolha de alimentos e bens essenciais, mas muitas incertezas permanecem. O que acontece se as cadeias de bens essenciais locais forem interrompidas? É necessário prever as necessidades futuras de bens essenciais e serviços e organizarmo-nos de acordo com isso.


À medida que o acesso ao dinheiro e ao rendimento se torna cada vez mais incerto, como é que nós e o Estado administramos os custos de estarmos vivos? Veremos uma crescente socialização e intervenção estatal, ou será necessário um colapso económico e logístico para o desenvolvimento de equipamentos e infra-estruturas alternativas e autónomas? Além de todo o trabalho voluntário que será exigido de nós para nos apoiarmos, uns aos outros, também devemos testar a nossa força em pedirmos e nos organizarmo-nos em torno de um conjunto de reivindicações para os nossos representantes eleitos, a nível municipal, estadual e federal. Foram lançados pedidos para Just Green Stimulus, e as seguintes reivindicações já estão a circular, juntamente com uma crescente oposição ao pagamento de renda normalmente executada no dia 1 de Abril:

  1. Assistência médica, testes e tratamento gratuitos para todos;
  2. Vales-refeição universais e licenças médicas pagas;
  3. Suspensão indefinida dos pagamentos de hipotecas, rendas e dívidas;
  4. Renúncia de pagamentos a empresas de serviços públicos, como as que fornecem electricidade, gás e internet;
  5. Abrigos de emergência em hotéis, dormitórios e casas desocupadas para os sem-abrigo.

Devemos priorizar os nossos membros da comunidade e vizinhos que estão em maior risco, incluindo idosos, deficientes, imunocomprometidos, aqueles que necessitam de ajuda e apoio regulares, e os não alojados. Muitos já estão a usufruir dos serviços de entrega de alimentos e bens essenciais com base em bancos de dados online que combinam pessoas e recursos. Também devemos apoiar os profissionais de assistência humanitária e prestadores de cuidados, que serão exauridos nas próximas semanas e que sem dúvida terão necessidades económicas e familiares que requerem apoio externo. Já deveríamos estar a acompanhar-nos uns aos outros para avaliar as necessidades e criar uma cultura de comunicação honesta e aberta, bem como um senso de responsabilidade compartilhada. Não devemos ter vergonha ou ficar constragidos em pedir ajuda uns aos outros. O apoio mútuo será o nosso começo, mas com o horizonte de construir formações autónomas capazes de desafiar o sistema político e económico que nos levou até aqui.


A dupla potência não se refere a um separatismo auto-fechado, mas à simultaneidade de construção e exigência. Nas próximas semanas e meses, teremos que descobrir não apenas como sobreviver ao momento presente, mas também como desenvolver uma força que impeça a restauração da ordem que actualmente está a falhar. À medida que avançamos para a Primavera, pessoas de todos os lugares estão a reunir-se, com máscaras, luvas e desinfectantes, para o início de uma nova vida em comum.

O texto foi originalmente publicado no dia 23 de Março aqui: https://conversations.e-flux.com/t/mutual-aid-social-distancing-and-dual-power-in-the-state-of-emergency/9686


[1]    Woodbine é um centro social/experimental  gerido por voluntários em Ridgewood, Queens, para o desenvolvimento das práticas, conhecimentos e ferramentas necessárias para construir autonomia. https://www.woodbine.nyc/

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