Chegou a hora de construir as brigadas.

Nunca vimos nada assim.

Valério e os seus camaradas sabiam que não poderiam lidar com o COVID-19 como o fariam com qualquer outra luta ou campanha de apoio mútuo. Já tinham participado nos esforços de alívio às cheias e em trabalho de apoio mútuo em áreas do norte de Itália devastadas pelo fogo, em movimentos contra a polícia e pelos trabalhadores, mas um vírus era algo diferente. Não é visível. Ao contrário do fogo, ou da polícia, não pode ser confrontado directamente. Valério esteve nas ruas de Génova, em 2001, durante o movimento anti-globalização, quando a polícia italiana assassinou Carlo Giuliani, ferindo e detendo centenas de outras pessoas, e participa em lutas autónomas há vinte anos, mas nunca em nada deste género. Tudo tinha de ser reavaliado.

Antes de tudo discutiram entre si que se iam andar nas ruas, a tentar ajudar pessoas, tinham de receber algo de formação e disciplina. Não poderiam fazer apenas o que lhes apetecesse, sob o risco de tornar tudo ainda pior, de fazer com que ainda mais pessoas ficassem doentes. Tinham de seguir protocolos de higiene apropriados, de perceber como se espalhava o vírus. Precisavam de formação. O primeiro passo foi encontrar um médico ou uma organização que pudesse providenciar essa estrutura. Entraram em contacto com uma ONG, a Emergency, que tinha estado presente na luta contra o Ébola na África Ocidental, e em particular com um médico que lhes pudesse explicar os protocolos correctos: como colocar máscaras e luvas, como interagir com quem estivesse infectado.

O passo seguinte foi criar equipas que podiam distribuir comida e medicamentos a pessoas impossibilitadas de sair de casa. Criaram uma central telefónica e distribuíram o seu número de apoio, para que todos os pudessem contactar e pedir ajuda. A Emergency cedeu-lhes o primeiro piso do seu escritório para armazenar provisões e receber chamadas.

Quando Valério falou com a Commune a partir do seu apartamento em Milão, de onde coordena as operações das Brigadas Voluntárias de Emergência, estas tinham já mais de 180 voluntários treinados a trabalhar em equipas por toda a cidade, e muitos mais aguardavam formação. Isto foi a 23 de Março. Valério contou-me que a situação no norte de Itália se tinha deteriorado rapidamente devido às terríveis decisões dos responsáveis políticos. Enquanto a epidemia explodia, o sindicato nacional de restauração distribuía um vídeo, com a hashtag #nãoparamos, a encorajar as pessoas a sair, a comer em restaurantes e a beber nos bares. A Confindustria, a patronal industrial, tentava fazer lobby junto do governo de modo a manter as fábricas abertas, mesmo quando o exército já patrulhava as ruas e as mortes aumentavam. A 21 de Março, o governo italiano deu o passo sem precedentes de fechar as fábricas, mas ainda assim a Confindustria conseguiu convencer o estado a mantê-las abertas alguns dias mais.

O trabalho das brigadas voluntárias é maioritariamente não-médico. Por toda a cidade, centenas de pessoas estão trancadas em casa, sem comida, sem provisões higiénicas como desinfetante e máscaras, sem cuidados médicos apropriados. Estão por vezes encerradas em situações perigosas ou de abuso, ou a lidar com questões psicológicas sérias. Como em várias cidades por todo o mundo, os hospitais em Milão só recebem agora as pessoas em estados mais graves, conduzindo a maioria dos casos confirmados ou presumidos a situações de isolamento doméstico, fazendo com que toda população vulnerável não possa sair à rua. É aqui que entram as brigadas. Dividiram a cidade em nove zonas, dando a cada um o nome de um Partiggiano famoso. Os seus centros de apoio recebem chamadas de todo o lado e distribuem as equipas para entregar fornecimentos, reenviando também os casos mais sérios para centros de apoio. Neste momento, o desafio é encontrar mais comida. Necessitam de toneladas de comida. Esperam também conseguir um fornecimento substancial de equipamento protector, que querem distribuir nos bairros. Conseguem agora encaminhar apoio psicológico às pessoas que o necessitam. O que gostariam mesmo de fazer é de poder ajudar todas as crianças fechadas em casa, e todos os pais sem apoio, mas tal é ainda complicado.

Muito do seu trabalho é possível porque estão dispostos a utilizar as ONGs e o governo local enquanto contexto para os seus esforços autónomos. Questionaram o governo relativamente à possibilidade de acção nas ruas, sem risco de perturbação por parte da polícia, e a operar uma linha telefónica distribuída pela Câmara Municipal. Dirigem muitas pessoas para os serviços sociais locais. No dia em que falámos, Valério mencionou uma pessoa, doente com COVID-19, com quem tinha falado essa manhã, uma mulher do Equador, com um diagnóstico positivo, que tinha sido mandada para casa porque o seu caso não era particularmente severo. Agora, estava preocupada em não conseguir aguentar. Não tinha comida, não podia trabalhar e vive sozinha com as suas três crianças, todas com COVID-19. As brigadas deram-lhe alguma comida, disse, mas no dia seguinte ia telefonar para a Câmara para ter a certeza que receberia um apoio mais substancial.

Os seus esforços não são os únicos, obviamente. Os sindicatos passaram à ofensiva nas grandes empresas e nos sectores logísticos, iniciando uma greve geral. Os trabalhadores destes sectores partilham espaços contíguos em situações de grande proximidade, sem equipamento de proteção ou medidas de segurança, ao mesmo tempo que noutros locais são aplicadas restrições draconianas, mesmo quando todas as evidências demonstram contaminações nos lares e nos locais de trabalho. Entre os trabalhadores da saúde, mesmo não podendo agora entrar em greve, cresce uma enorme raiva pela falta de equipamento e de recursos.

Também os prisioneiros estão em revolta aberta contra os buracos superlotados onde são obrigados a viver. 28 prisões italianas foram palco de motins e insurreições no início de Março, quando a doença se começou a espalhar entre os prisioneiros. Em Bolonha, depois de uma fuga em massa, 8 prisioneiros foram alvejados. 13 outros prisioneiros morreram na onda de revoltas, muitos alvejados, outros em circunstâncias por esclarecer.

Valério estava no exterior da prisão em Milão, manifestando-se. Os prisioneiros estavam nos telhados, gritando, tinham incendiado já parte da cadeia. Foi aqui que Valério e os seus camaradas perceberam que esta luta não seria como nenhuma outra e que iria requerer novas tácticas e novas ideias. Por agora, o foco está no apoio mútuo, na sobrevivência sob condições desesperadas, mas com o respeito que as brigadas ganham a distribuir mantimentos e medicamentes, no futuro várias outras coisas serão possíveis. Chegará uma altura onde será outra vez seguro sair às ruas em números grandes, quando a pandemia diminuir, e chegará então a altura do acerto de contas com os responsáveis, com os políticos que esventraram os serviços de saúde e com os patrões que puseram em risco os seus empregados. Se se olhar para os locais onde o surto é pior percebe-se que são também os locais de maior concentração de capital Italiano, onde a maior parte das empresas está sediada, onde o maior número de trabalhadores é explorado. Bergamo, onde o surto é o maior, é um centro industrial, produzindo ferro, cimento e mármore, bem como têxteis e metais refinados. Agora, os crematórios colapsaram e o exército foi chamado para remover os cadáveres.

O mais importante, diz-nos, é agir eticamente, fazer frente à situação, e mostrar que os grupos autónomos são capazes de prestar uma assistência mais cuidada do que o estado e os patrões, que estão mais apetrechados a fazer face às demandas. Isso faz-se a mostrar quão organizado e sério se é. Uma vez estabelecida essa confiança e credibilidade, poderão mostrar que os que morreram do vírus foram vítimas do capitalismo e não vítimas de um acidente do destino. Uma pandemia é uma ocasião única, espalha-se por todo o lado entre as pessoas e nesse momento cria uma situação comum a todas, por todo o mundo. Chegou a hora de construir as brigadas.

texto original: https://communemag.com/its-time-to-build-the-brigades/

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