Fujian 01 02 2020 Um médico verifica a temperatura corporal de uma mulher em um hospital em Fuzhou, província de Fujian, no sudeste da China,. Várias medidas são tomadas na China para combater o novo coronavírus.foto Gov Cn

Giorgio Agamben: ‘Esclarecimentos’

Este texto foi publicado originalmente no website da editora italiana Quodlibet: https://www.quodlibet.it/giorgio-agamben-chiarimenti

Um jornalista italiano aplicou-se, no bom uso da sua profissão, a distorcer e a falsificar as minhas considerações sobre a confusão ética para que a epidemia atirou o país, onde já não existe sequer qualquer consideração pelos mortos. E se nem vale a pena citar o seu nome, também não valerá a pena corrigir as manipulações óbvias. Quem quiser pode ler o meu texto Contágio no site da editora Quodlibet. Aí publico regularmente outras reflexões que, apesar da sua clareza, também elas serão presumivelmente falsificadas.

O medo é mau conselheiro, mas revela muitas coisas que fingimos não ver. A primeira coisa que a onda de pânico – que paralisou o país – mostra com evidência é que a nossa sociedade já não acredita em mais nada que não seja a vida nua. É evidente que os italianos estão dispostos a sacrificar praticamente tudo, as condições normais de vida, as relações sociais, o trabalho, até mesmo as amizades, os afetos e as convicções religiosas e políticas sob o perigo de contrair a doença. A vida nua – e o medo de perdê-la – não é algo que una a humanidade, mas que a cega e separa. Os outros seres humanos, tal como na peste descrita por Manzoni, são agora vistos apenas como possíveis infetados que é preciso evitar a todo custo e dos quais é preciso manter uma distância de pelo menos um metro. Os mortos – os nossos mortos – não têm direito a um funeral e não é claro o que será feito com os cadáveres das pessoas que nos são queridas. O outro, o nosso próximo, já não existe, e é curioso o silêncio das igrejas a esse respeito. Como serão as relações humanas num país que se habitua a viver deste modo, não se sabe por quanto tempo? E o que é uma sociedade que não tem outro valor que não seja o da sobrevivência?

Outra questão, não menos importante que a primeira, é que a epidemia revela com clareza que o estado de exceção, a que os governos já nos habituaram faz tempo, se tornou na verdadeira condição normal. Houve no passado epidemias mais graves, mas ninguém alguma vez pensou em declarar um estado de emergência como o atual, que nos impede até de mover. Os homens estão tão habituados a viver numa condição de crise e emergência permanente que já não se apercebem que a sua vida foi reduzida a uma condição puramente biológica, e que perdeu qualquer dimensão, não só social e política, mas também humana e afetiva. Uma sociedade que vive num permanente estado de emergência não pode ser uma sociedade livre. Nós somos, de facto, uma sociedade que sacrificou a liberdade em prol das assim chamadas “razões de segurança” e que se condenou, por isso, a viver num permanente estado de medo e insegurança.

Não nos surpreende que para falar do vírus se fale de guerra. E que as medidas de emergência nos obriguem a viver, de facto, com o recolher obrigatório. Mas uma guerra contra um inimigo invisível, que se pode aninhar em qualquer um de nós, é a mais absurda das guerras. É, na verdade, uma guerra civil. O inimigo não está fora, está dentro de nós.

Aquilo que preocupa não é tanto, ou não é apenas, o presente, mas o depois. Assim como as guerras deixaram à paz uma série de técnicas nefastas como herança, desde o arame farpado até às centrais nucleares, é muito provável que mesmo depois da emergência sanitária, os governos tentem continuar as experiência que não tinham sido antes capazes de realizar: que se fechem as universidades e as escolas e se façam apenas aulas online, que se deixe de uma vez por todas de reunir e falar por razões politicas, ou culturais e que se troquem apenas mensagens digitais e que, onde for possível, as máquinas substituam qualquer contato – qualquer contágio – entre os seres humanos.

Giorgio Agamben – 17 de março de 2020

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