Philarmonic les flics: que fait la Police?

Caras camaradas,

Encontrámo-nos as três na ZAD (Zone À Défendre) de Notre-Dame-des-Landes, para nos revermos e aproveitarmos juntas uns dias de Verão. Quando duas de nós chegaram à ZAD, a nossa camarada de lá falou-nos de uma das últimas lutas que se estavam a passar em Nantes.

A nossa expectativa de encontrar uma cidade mais serena, depois de um ano de despejos violentos na ZAD e depois do decrescer do movimento dos coletes amarelos, ruiu quando ouvimos falar da morte do Steve Maia Caniço. Cremos que também saíram notícias sobre o caso em Portugal.

No dia 21 de Junho é celebrada em Nantes a “Festa da Música”. Na edição deste ano, a festa terminou com uma carga policial violentíssima. Alegando que a música tinha ultrapassado o tempo definido, a polícia francesa disparou gás lacrimogéneo e balas de borracha, e cercou uma das pontes da cidade, fazendo com que cerca de 20 pessoas caíssem ao rio Loire. Steve, um luso-descendente de 24 anos, foi uma dessas pessoas, e não sobreviveu.

Durante mais de um mês a polícia diz ter procurado o jovem mas apenas no dia 29 de Julho o corpo foi descoberto, não pelas autoridades, mas por um barco de transporte público, a poucos metros do local onde tinha acontecido a carga policial.

No dia 30 de Julho, o primeiro-ministro Edouard Philippe continua a afirmar: “Não pode haver ligação entre a intervenção das forças policiais e o desaparecimento de Steve Maia Caniço”.

Desde o final de Junho, que a família e amigos do Steve, bem como diferentes grupos e colectivos culturais e políticos de Nantes, organizaram vários protestos contra a repressão policial: uma noite de dança contra “a repressão dos corpos dançantes”, porque “a polícia feriu e matou pessoas que dançavam”; foi apresentada uma queixa colectiva de 89 pessoas contra a polícia de Nantes; foram espalhados cartazes por toda a cidade e em particular na Praça Royale de Nantes, uma das mais emblemáticas da cidade, onde a água da fonte foi tingida de vermelho e as estátuas foram cobertas de frases que perguntam “Où est steve?”, “Où est la justice?”; pintou-se também um mural de homenagem ao Steve, com a frase “Que fait la police?”.

Para além destas acções, estavam convocados para dia 3 de Agosto dois protestos, aos quais pudemos ir: às 11h uma marcha branca silenciosa e às 13h uma manifestação contra a violência policial.

A primeira, com o ponto de encontro junto à grua onde foi descoberto o corpo do Steve, contou com cerca de mil pessoas. Não ficámos muito tempo neste lugar, mas percebemos que se tratava de um momento de homenagem, com muitos silêncios, alguns aplausos, caras consternadas, flores atiradas ao rio e uns poucos cartazes e faixas, que não perdoam a polícia.

Da parte da tarde, o ambiente era bem diferente. A segunda manifestação foi marcada para o mesmo dia da semana e hora a que habitualmente se encontram os “coletes amarelos” – sábado às 13h. Mesmo sendo dia 3 de Agosto, estiveram cerca de 5000 pessoas nas ruas de Nantes.

Desde o dia anterior que centenas de forças policiais estavam concentradas na cidade. Antes do início da manifestação, foram revistados cerca de mil carros à entrada de Nantes e detidas dezenas de pessoas, “preventivamente”. O Ministério do Interior de França – que em Portugal corresponde ao Ministério da Administração Interna – continua a negar a relação entre a carga policial e a morte de Steve e proibiu a manifestação convocada de circular no centro histórico da cidade.

Para nós, esta segunda manifestação foi marcada por momentos bastante impressionantes. Apesar das intimidações institucionais e mesmo com o sol escaldante de Agosto, uma multidão de gente não se deixou amedrontar e acorreram à manifestação pessoas muito diferentes – não apenas “black bloc” ou os “coletes amarelos”. Eram também estes grupos, mas muitos mais, desconhecidos para nós – um espectro etário gigante, famílias, jovens raivosos, velhos revolucionários, não-militantes.

Parece-nos que as manifestações mais “militantes” têm normalmente um ciclo de tensão que começa calmo e que precisa de algum tempo para “aquecer” e se tornar mais tumultuosa. Aqui não, a manifestação começou desde logo muito aguerrida e seguiu sempre cheia de força. Ouvimos as palavras “justiça”, “revolução”, a frase “toda a gente odeia a polícia”, os nomes de outras pessoas também mortas pela polícia nos últimos anos – “quem os matou?”.

A polícia tentou dispersar a manifestação com jatos de água, gás lacrimogéneo, granadas ensurdecedoras e balas de borracha. Apesar das cargas, muitas pessoas continuaram a avançar na linha da frente e algumas recuavam para se reorganizarem e continuar a avançar pelas ruas principais ou laterais, o que fez com que se multiplicassem pequenas ondas de protesto um pouco por todo o lado. Incendiaram-se caixotes do lixo, fizeram-se barricadas, partiram-se montras. Rapidamente, toda a cidade se transformou numa manifestação gigante contra a repressão estatal e policial.

Ouvimos dizer que, se fosse há dez anos atrás, a manifestação teria acabado com as primeiras granadas de gás lacrimogéneo. Mas os constantes protestos de rua desde 2014, contra a nova lei do trabalho, ou pela mão dos “coletes amarelos”, tornaram mais comum a experiência de estar na rua e de resistir. Apesar de todos os ataques policiais, as pessoas nunca desistiram da manifestação.

As três aranhas astuciosas

Social

Subtitle