Ostinato ou do pessimismo e ressaiba

uma diatribe leonina de Bernardo Álvares

It’s not easy to get around this kind of thing

It’s not easy that there’s any perspective on the world

It’s not that there’s any overview of the world

It’s not that there’s any understanding of the world

It’s that there’s not any understanding of the world

It’s that the world is incomprehensible immaterial on the outside

while I’m alone

I critique myself

I deal with myself

as a disagreement between myself

and a world that’s incomprehensible immaterial on the outside

I myself am incomprehensible immaterial on the outside

but not on the inside

I’m not that way when I’m alone

just between us, I’m not that way here now

when you read

that I write that I’m not that way

On the contrary

You’re an old ocean yourself

You’re a phlegmatic kingdom yourself

You traverse you own solemn loneliness

It’s not the ocean that becomes comprehensible

It’s not the kingdom that becomes material

It’s not the loneliness that comes inside

It’s you It’s me It’s the disagreements between us

This in itself is the image of a political poem.

-Inger Christensen

Recebi recentemente um convite para me envolver numa angariação de fundos para uma associação criada para defender bairros lisboetas contra grandes empreendimentos aprovados municipalmente em circunstâncias dúbias.

É obviamente mais uma batalha perdida à partida, mas claro que ofereço o corpo ao manifesto e aceitei tocar nesse benefit.

O meu plano era tocar a ‘Chrstnsn’s ithme’, uma malha que costumo tocar a solo, uma repetição teimosa até ao esgotamento baseada no “It” da Inger Christensen. Preparei um texto para projetar durante o concerto mas o benefit acabou por ser adiado e decidi adaptar o texto e partilhá-lo desta forma.

Perdi todas as batalhas que travei.

Consigo munir-me de quantas poetas queira para discursar sobre a importância e sabedoria da cedência, do ever tried, ever failed, fail again do Beckett ao vulnerability is power do Williams. Mas o certo é que chego agora aos 30 num cenário de desesperança e desilusão, sem quaisquer perspetivas e com os sonhos esmagados pela realidade. Tão inadaptado como quando tinha 17 e passava horas, dias e noites no telhado de casa da minha mãe em Leiria à espera que acontecesse alguma coisa.

Vivo entretanto numa cidade pejada das pessoas mais incríveis e tenho o maior privilégio de as ter como minhas amigas. E embora tal rodeio quotidiano, e mesmo continuando a conhecer e privar com “role-models” em trânsito, sinto-me a embrutecer cada vez mais.

Essas mesmas “role-models” vivem igualmente aziadas de razão, presas nas suas crises e entupidas na sua própria sobrevivência a navegar o cinzento da moralidade.

Será melhor deixar estragar ou envelhecer conservando em acidez? Esta é talvez a causa e ideia central da necessidade de me por a nu neste desabafo: Atormenta-me não conseguir imaginar nenhuma versão futura de mim não ressabiada. Diz que a melhor versão de mim já passou, numa equação em que + barriga – cabelo + ressentimento = ao que raio venha a ser eu.

Há talvez uma beleza em estar toda a gente agora quebrada, com o avançar da idade e das dificuldades. Qualquer ato de afeção ou comunhão exponencia a sua dimensão na complexidade da sobrevivência quotidiana no contexto desta selva urbano-depressiva em constante chantagem emocional.

E o Ginsberg martela o mantra:

I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked,
dragging themselves through the negro streets at dawn looking for an angry fix,
angelheaded hipsters burning for the ancient heavenly connection to the starry dynamo in the machinery of night,
who poverty and tatters and hollow-eyed and high sat up smoking in the supernatural darkness of cold-water flats floating across the tops of cities contemplating jazz…

E continua. E repete.

Vou em breve tocar a New York, onde me interessa sobretudo perceber como lidam as pessoas com o american dream no seu expoente mais competitivo. Uma lógica de que só fica quem consegue.

E se eu, jovem artista precário, 30 anos, consigo ir ficando na pequena Lisboa é apenas metamorfoseando-me numa barata semi-morta a arrastar-me com a auto-estima por um fio.

Chego aos 30 no mesmo limbo do reconhecimento e valorização potencial dos 20, simultaneamente sub e sobrequalificado para qualquer trabalho mais normativo. Qualquer evolução ou crescimento pessoal que atinja não se traduz em nada porque não é validado pelo capital. Mas sobretudo não tenho conseguido que nada se transforme em construção. É, parece, sempre preciso fazer as coisas da estaca zero. Cada novo mês requer uma nova estratégia de sobrevivência. Sinto-me sem-abrigo. Vivo em casas consecutivamente piores e mais caras que a anterior. E perco todas as batalhas.

Durante muitos anos não gostava de jogos de tabuleiro porque basicamente só conhecia o Monopólio, que é uma seca onde tudo depende apenas da sorte em calhares em casas chave antes dos teus adversários e conseguires investir nelas. E demora bué. Perdi por desistência todos os jogos de Monopólio que joguei, menos um. Nesse jogo fomos começando por fazer algumas alianças do tipo “não pago quando calhar nas tuas casas e tu não pagas nas minhas” e à medida que o jogo foi avançando fomo-nos apercebendo de que estava toda a gente muito melhor numa utopia comunista do que a jogar um jogo estúpido sozinhas. E acabou assim o jogo numa aliança coletiva de hotéis à pala.

Passei os últimos meses debruçado sobre o problema estrutural do circuito exploratório musical tuga. Sobre como resolvê-lo ou, sei lá, coletivizá-lo. Era e foi, obviamente, uma batalha perdida. Não dá para fazer uma analogia direta com o Monopólio porque, quando começámos a jogar, já o jogo do real estava cheio de Rossios com hotéis controlados por jogadores inacessíveis. Mas há na mesma o sentimento de que ou vencemos coletivamente ou o pessoal desiste porque tem mais do que fazer do que morrer lentamente em ressaiba.

É talvez provável que a maioria das “coisas boas” venham de lugares de crença e otimismo. Mas acreditar trouxe-me até ao lugar sombrio em que estou e no qual não quero estar, pelo que admito que tenha agora a aprender com o pessimismo.

Há coisa de um mês, na ressaca imediata de ter saído de uma relação amorosa, uma amiga perguntou-me como estava. Respondi-lhe que me sentia num casulo crisálido apertado em escuridão. Uma metáfora que pode carregar em si um otimismo irritante de ver toda uma vivacidade na borbota que potencialmente aí vem. E sei que há crescimento à minha volta e coisas que fazem sentido. Pessoas lindas a conhecerem-se umas às outras e aproximarem-se e fazerem coisas em conjunto. E obviamente este discurso vem do alto do privilégio de quem tem conseguido sobreviver sem um full-time. Mas não é por isso que deixo de sentir que tenho de me preparar para o cenário em que saio deste casulo totalmente barata.

Precisava descansar e dava dois dedos do pé em troca de umas férias de desesxistência.

Não percebo se tenho tendência para universalizar os meus problemas ou para viver personalizadamente os problemas da humanidade. Mas aqui estou eu e nós. Nas palavras do Invisible, não estamos deprimidas, estamos em greve.

Como diz o Stark, if we can’t protect the Earth, you can be damn sure we’ll avenge it. Em poucas semanas o Avengers: Endgame bateu o recorde de filme que mais dinheiro fez de bilheteira desde sempre. Estamos obviamente no ano da vingança. A nossa geração apercebe-se agora do duplo sentido da mesma, a apropriação motivada pela raiva. Vingamos tudo, dos sintetizadores dos 80’s às roupas dos 90’s. Vinguemos a ressaiba e o pessimismo. Vinguemos as batalhas perdidas. Vinguemos vidas melhores.

There’s nothing more powerful than an idea whose time has come, diz também o Williams repetindo o Hugo.

Parabéns a vós, companheiras da conspiração.

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