A Comuna de Arroios e a Torre da Portugália

O transformar da Avenida Almirante Reis num dos novos pólos sociais e culturais da cidade de Lisboa ocorreu em sintonia com a crise financeira de 2008 e com a ramificação das suas expressões globais. Talvez por isso tenha sido um processo tão marcadamente contracultural e politizado e, ao mesmo tempo, tão contrastante com as formas sociais culturais que previamente constituíam a Lisboa “boémia” e “alternativa”.

 Se os espaços tradicionais da boémia Lisboeta – o Bairro Alto, o Príncipe Real, etc. – encenavam a afirmação das cliques urbanas que reclamavam o estatuto de elites culturais e intelectuais, na Almirante Reis a apropriação do espaço urbano não foi feita a partir de galerias e bares, mas a partir de centros sociais, de ocupações, de pequenas associações e de espaços culturais tendencialmente subterrâneos, como se não pretendessem aspirar à cidade mas antes escapar dela. Mais do que procurar legitimação e reconhecimento pelo poder, as dinâmicas sociais da Almirante Reis pós-2008 surgiram como exercícios de secessão de dinâmicas e dos fluxos da metrópole enquanto máquina de acumulação de capital. Na década que passou desde a última grande crise abriram um número impressionante de pequenas associações, tanto que é difícil recordar todas: o RDA69, a Severa, a Zona Franca, o SOU, a Taberna das Almas, a Crew Hassan, o Mob (agora Sirigaita), a Disgraça, A estrela decadente, etc. Paralelamente, algumas experiências de ocupação foram levadas a cabo no Campo Mártires da Pátria, no Martim Moniz e em Arroios. Vários negócios independentes relativamente sintonizados com esta presença – bares, cafés, livrarias e restaurantes – abriram ainda na zona. As dinâmicas de emprego e auto-emprego criaram uma bolha económica na zona, ocupada essencialmente por alguns dos seus habitantes.

Contrastando com a elegância subtil do Príncipe Real, com a autenticidade boémia do Bairro Alto ou com a arquitectura de autor do Chiado, a Almirante Reis é feia. Era na década passada um corredor de marquises desirmanadas e comércio chunga, habitado por imigrantes, toxicodependentes, trabalhadoras sexuais, idosos e uma classe média-baixa a meio caminho entre os bairros populares e as avenidas novas. Na Almirante Reis parece cruzar-se a arquitectura e a onomástica do Estado Novo com a falta de gosto dos anos 70 e 80, uma espécie de subúrbio interior à cidade, alheio tanto ao típico como ao moderno. Foi precisamente no espaço dessa excepção à ideia oficial de Lisboa que surgiram uma série de projectos políticos e culturais contrários tanto ao conservadorismo de uma cidade que nunca acordava como ao caciquismo frágil da intelligentsia política e cultural.

Almirante Cândido dos Reis para sempre nos nossos corações

Este processo foi simultâneo ao influxo de uma população jovem à zona, que a habitou a partir da precarização ditada pela austeridade, vivendo intensamente o espaço enquanto forma de resistência. O ressurgimento em 2011/2012 de uma esquerda extraparlamentar e autónoma passou directamente por essa rede de espaços. As gigantescas manifestações anti-austeridade, as mobilizações contra a gentrificação, os novos activismos queer e feministas, inúmeros projectos editoriais e criativos, as redes anti-repressão, etc., são fenómenos emergentes que – directa ou indirectamente – germinaram dentro das redes sociais que emergiram dessa ocupação do território.

Esse entendimento político do território parte de uma consciência de que a atomização e o individualismo das sociedades capitalistas contemporâneas não são apenas um efeito do capitalismo, mas um modo de controle e um modo de exploração. De modo mais ou menos consciente, de modo mais ou menos assumido, as experiências políticas da Almirante Reis viram a vida colectiva tornar-se numa fronteira política, e o modo de viver numa prática antagonista. Do mesmo modo que as práticas de militância romperam com a política institucional, também romperam com a percepção essencialmente “ideológica” que era feita do activismo. O proselitismo e a pedagogia eram práticas abandonadas em prol de dinâmicas que pudessem construir organização e contra-poder, de modos imediatamente materiais, por exemplo, na organização de cantinas populares que, entre os vários locais, chegam a estar abertas todos os dias da semana.

Este caldo criou formas de vida inéditas em Lisboa, extremamente marcadas pela proximidade territorial entre pessoas e experiências colectivas. Foi desenhada, enquanto fenómeno transversal e colectivo, uma certa ideia partilhada de secessão, de se estar a habitar um território autónomo do resto da cidade, antagonista com as dinâmicas do poder e de legitimação do poder. Nem a cidade cinzenta nem a cidade fashion, mas um local onde viver e experimentar. Neste habitar não foi encontrado apenas um refúgio, mas uma forma diferente de fazer política, onde vida, militância, antagonismo e criatividade deixavam de ser territórios separados, mas campos de potencialidade que se alimentam uns aos outros.

Todas estas experiências, nos seus múltiplos graus de intensidade e envolvência, encontraram rapidamente, como seria de esperar, os seus limites, os seus problemas, as suas contradições e as suas divergências. Todos os projectos colectivos formais ou informais encontram os seus becos sem saída, os seus folclores, a sua celebração gratuita, as suas tragédias, a sua mediocridade e o seu desespero. No entanto, o limite mais óbvio destas experiências foi como tornaram apelativo e rentável o investimento financeiro e comercial na zona. A própria dimensão social “alternativa” foi reconfigurada enquanto riqueza passível de ser extraída, e, pouco a pouco, foi sendo reorganizada e reconfigurada enquanto fonte de lucro e de valor. Na incessante dialética da luta e classes, a reapropriação do espaço foi reapropriada pelo próprio capital.

Os processos de gentrificação em curso tornaram-se, nos últimos anos, óbvios. O que é menos óbvio é como a gentrificação não é um defeito de “cidadania”, mas uma expressão perfeita da luta de classes. Pela sua potência, pela sua intensidade, pelo modo como conseguia, mesmo que parcialmente, escapar ao regime geral da reprodução social, a vida colectiva da Almirante Reis tornou-se mercadoria. Tanto o poder político como o poder económico procuram capitalizar as dinâmicas sociais ali ensaiadas. Se o capital procura transformar essas dimensões sociais em lucro, o estado procura esvaziá-las do seu potencial antagonista, utilizando-as enquanto legitimação do seu poder. É aí que reside a dimensão de antagonismo presente na experiência dos movimentos da Almirante Reis. De um lado surge uma apropriação colectiva do espaço urbano, daquilo que eram as ruínas do capital, feita a partir de um saber e de uma experiência partilhada e entregue a um propósito comum. Do outro lado, surgem as tentativas por parte do estado e do capital de usurpar essa potência, de se aproveitar dela para se fortalecer, de a tornar a incluir dentro das dinâmicas de reprodução do poder da metrópole.

Se o projecto de controlo e de valorização foi até agora feito através da gentrificação, ele encontra agora o seu cúmulo no projecto da Torre da Portugália, uma espécie de padrão dos descobrimentos da financeirização da cidade. Contrariamente ao que tem sido escrito, o problema da torre da Portugália não é imediatamente urbanístico. Ele é sobretudo político, no sentido que é uma questão de antagonismo e não de gestão. A torre da Portugália representa sobretudo uma necessidade de recuperar dentro do estado e dentro da economia as dinâmicas criadas à margem da planificação capitalista.

Não obstante os mil artigos de opinião, os mil documentários e os mil grupos no facebook, o passo que até agora não foi dado nas lutas e nas discussões sobre as transformações em curso na cidade de Lisboa foi precisamente o de entender que em jogo estão formas de viver a cidade extremamente antagónicas. De um lado a extensão do capitalismo a cada recanto da vida, a colonização pelo valor de recantos cada vez mais profundos da existência pública e privada. Do outro a apropriação colectiva do território e a utilização do espaço enquanto modo de interrupção da reprodução do capitalismo e das nossas vidas dentro do capitalismo. O projecto da Torre da Portugália apresenta-se enquanto o momento crucial para materializar este confronto do modo mais explícito possível, provando que é através da construção de formas de luta partilhadas que se consegue de facto habitar um local.

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