I’ve got 99 problems mas uma análise de classe não é um deles.

Mike Harman

Algumas coisas não deviam ter passado de 2011. O slogan mistificador dos 99% é uma dessas coisas.

“Nós somos os 99%” constituiu o grito de guerra do movimento Occupy. Apesar do seu uso ter diminuído desde 2011, é possível identificar-se alguns esforços no sentido da sua ressurreição à medida que aumentam as manifestações contra Trump. Tal poderá verificar-se devido a uma vontade de reavivar o espírito do Occupy, porque se gosta do slogan ou por a frase se ter, entretanto, tornado parte do vocabulário comum da análise de classe e do ativismo.   

Ao invés de expor as relações de classe de uma forma acessível, o slogan dos “99%” vem mistificar o modo de funcionamento do capitalismo, conduzindo a uma interpretação algo confusa da luta de classes. Abre a porta a uma visão conspirativa do capitalismo e, frequentemente, vem legitimar meios de luta reformistas e sociais-democratas.

Em primeiro lugar, vejamos os “1%”. Em termos gerais, tal equivale aos 1% mais ricos do mundo: presidentes, CEOs, investidores de Wall Street; aquilo que Naomi Klein recentemente designou de “classe de Davos”. 

Os 99% correspondem, basicamente, a todos os que não pertencem a este grupo. Este inclui os diretores de grande parte das pequenas e médias empresas, gestores de alto e baixo nível, dirigentes sindicais,  executivos de ONGs, agentes da polícia, guardas prisionais, jornalistas, políticos em ascensão, académicos, bem como trabalhadores e desempregados. No início do movimento, alguns manifestantes do Occupy tinham palavras de ordem como “Os polícias são os 99%”, “Também lutamos pelas vossas pensões!”, normalmente gritadas antes – não tanto depois – dos polícias dispararem gás lacrimogéneo.  

Os 1% são os bilionários, os tecno-oligarcas, os investidores de Wall Street. Os 99% são o povo, a larga maioria da sociedade.

O conceito foi recentemente usado, em 2016, pela campanha presidencial de Bernie Sanders; num recente artigo do Guardian a apelar a uma Greve Feminista Internacional a 8 de março, onde por três vezes se refere um “feminismo dos 99%”, em oposição a um feminismo gradual; e foi vigorosamente defendido por Conor Kilpatrick, na revista Jacobin, como um simples meios de se identificar a classe a que se pertence.

No entanto, o capitalismo não tem como base as ações da classe de Davos ou dos 1 %. Constitui, ao invés, um sistema social hegemónico que se mantém, essencialmente, através de relações sociais de trabalho assalariado e de produção de mercadorias. 

Tens que ganhar salários para ter dinheiro. Tens que gastar esse dinheiro no pagamento da renda, de serviços, de comida, de forma a poderes sobreviver. O teu trabalho envolve ou a produção/distribuição de mercadorias ou a manutenção (ou gestão) da própria força de trabalho, caso o teu emprego seja em setores como a educação ou a saúde. 

Se fores e desempregado ou estiveres preso, poderás estar a trabalhar à mesma, por via de workfare[1] ou de trabalho prisional, sob salários e subsídios abaixo do nível de subsistência. 

Os robôs poderão estar a roubar empregos. Mas não estão, como forma de recompensa, a realizar entregas semanais de comida grátis à tua porta ou dispostos a limpar-te o cu quando fores velho.

Estes conceitos não são difíceis de compreender. Eles surgem cada vez que se acorda na segunda-feira de manhã ou se vislumbra o extrato de conta. Toda a hora gasta no trabalho reforça, de uma maneira ou de outra, o sistema contra o qual se luta. 

Como lutar contra os 1%? A não ser que vivas em São Francisco, Londres ou Nova Iorque (ou mesmo que vivas), poderás nunca ver um membro dos 1% na vida real. Restam os usuais protestos simbólicos dentro ou fora de instituições públicas ou financeiras, os quais situam a fonte de poder num lugar remoto e inatingível. Na pior das análises, o discurso em torno dos “banqueiros” tende para um antissemitismo estrutural, remetendo todos os problemas do mundo para os sombrios encontros conspirativos realizados em cimeiras internacionais.

O seu resultado frequente é a coligação em torno de campanhas eleitorais populistas de esquerda, as quais necessitam de um público tão vasto quanto possível, de forma a conquistar eleitores descontentes.

Apesar destas limitações, o Occupy envolveu-se, de facto, com protestos que bloquearam o capital, especialmente em Oakland, onde se estabeleceram relações com os trabalhadores na manifestação de 2 de novembro de 2011. Estes aspetos particulares do movimento devem ser recordados à medida que se desenvolve a resposta ao Brexit e a Trump. Contudo, a ideia dos 99% deve ser deixada em 2011, onde deveria ter permanecido em primeiro lugar. Deveria igualmente considerar-se outros movimentos recentes, como as ocupações e greves estudantis no Reino Unido de 2010, o movimento contra o CPE em França no ano de 2010, as ocupações estudantis no Quebec em 2012, a greve prisional nos Estados Unidos em 2015, as revoltas contra a violência policial em Ferguson e Baltimore durante 2014 e 2015, e as greves dos imigrantes nos Estados Unidos em 2006. 

Quando se luta contra o trabalho através de greves, da diminuição do ritmo do trabalho e do absentismo, confronta-se o capitalismo ao nível da produção. Quando se luta contra a violência policial, os despejos, as rusgas contra imigrantes e o fenómeno dos sem-abrigo, confronta-se o capital nas suas relações de propriedade e no controlo social que mantém. Trata-se de luta de classes contra os processos de reprodução de classe, que contrastam com as categorias estáticas e o “redistribucionismo” da esquerda convencional. 

Ao invés dos 1%, as lutas contra o gestor de arrendamento, o departamento de recursos humanos, a polícia, o SEF, os investidores imobiliários, os dirigentes do poder local; aqueles responsáveis pelo reforço das fronteiras, pelos cortes salariais, pela gentrificação, pelo aumento das rendas, pela criminalização de comunidades e restante merda. Eles não podem ser mobilizados como parte dos 99%, a não ser que rejeitem por inteiro o seu papel. A abolição da polícia, não a sua cooperação, como se verificou no Occupy Sandy. A expropriação dos CEOs de empresas tecnológicas, não a sua incorporação numa resistência liberal interclassista.   

O enfoque nos 99% ou nos 1% em vez de fomentar uma análise de classe, retira a devida atenção à luta de classes, orientando-a para protestos contra sujeitos remotos e abstratos. Mesmo quando os donos das empresas e das casas se encontram bem afastados, os escritórios, os estabelecimentos comerciais, os armazéns e os bairros que detêm constituem os espaços onde consumimos, trabalhamos e vivemos. 

Traduzido a partir daqui


[1] NT: sistema de segurança social que faz depender a atribuição de subsídios ao exercício de trabalho.

Social

Subtitle