A esquerda e o PAN

A eleição de um deputado por parte do partido “Pessoas, Animais, Natureza” trouxe ao de cima a sua afirmação de que não seria “nem de esquerda nem de direita.”

Se por um lado esta afirmação se situa numa recusa conservadora da política, por outro, o escândalo que esta suscita na esquerda é também digno de atenção, dado que revela precisamente a incapacidade desta de perceber o seu papel na reprodução do poder e o modo como se presume, de modo trágico, enquanto excepção intelectual e ética aos tempos que correm. À ambiguidade do PAN corresponde apenas a incapacidade da esquerda.

A afirmação da recusa tanto da esquerda como da direita assenta em dois pilares. O primeiro entende o espectro político “esquerda-direita” enquanto exclusivamente relegado à esfera da representação. “A esquerda” serão os partidos de esquerda e “a direita” os partidos de direita. Em nenhum momento os quadrantes políticos correspondem a dinâmicas sociais – eles são essencialmente esferas de especialização da gestão do poder. Pelo contrário, nesta perspetiva, a vida real da sociedade é essencialmente produtiva e económica, e a função do estado deveria ser apenas a de a organizar. Ao ser colocado acima da naturalidade da vida social, o poder é sempre corrupto, no sentido em que se gere e organiza através conflitos que transcendem a mera gestão do país. Contra a direita e a esquerda está então uma ética do trabalho produtivo, que necessita de encontrar figuras de comando fortes, que consigam exercer de modo inequívoco a função carismática do seu poder sobre o continuum empresa-estado.

Se este paradigma incluía personagens como Marinho e Pinto, o carácter apolítico do PAN é relativamente diferente. Partindo da mesma denúncia do poder não lhe opõe uma racionalidade económica, mas sim ética. Contra o desencantamento das sociedades contemporâneas, a única política possível é a ética dos bons sentimentos, que surge associada também a uma ética produtiva, mas cujo mito fundador não é tanto a meritocracia e o mercado, mas, pelo contrário, a ideia de uma racionalidade social que consegue fazer de cada cidadão uma unidade moral perfeita. Não por acaso vimos em Labrincha e companhia os primeiros passos deste tipo de iniciativa política.

A esquerda queixa-se da falta de densidade intelectual e de frontalidade ideológica destas posições. O problema desta posição parte, desde logo, da incrível presunção das forças vivas da esquerda nacional relativamente à sua própria densidade intelectual. Nenhum dos partidos de esquerda com representação parlamentar tem, hoje em dia, quadros intelectuais capazes de produzir uma análise crítica e política qualitativamente superior à dos outros partidos à sua direita. Paralelamente, nenhum dos partidos de esquerda com representação parlamentar parece ter em si dinâmicas coerentes e colectivas de um questionamento das tendências globais do desenvolvimento do capitalismo que lhes permita propor uma modalidade de militância que transcenda a reprodução da própria organização, e, consequentemente, o modo como estas estão sobredeterminadas pelas dinâmicas representativas e parlamentares.

Escreveu-se ainda que o PAN não fala da classe. Verdade. Mas isso não significa que o entendimento que a esquerda parlamentar tem da “classe” seja politicamente muito mais capaz. Se para o Bloco a classe é um mandato para lutas por um capitalismo gerido pela esquerda em nome de um bem comum abstracto, para o PC, ou para parte do PC, a classe é uma antropologia do trabalho e uma reserva ética, não uma potencialidade política autónoma.

O PAN assusta a esquerda, precisamente, porque consegue espelhar a sua tentativa de diferença ética com metade do esforço de legitimação. É nessa continuidade que o voto de protesto se transfere do Bloco de Esquerda, partido integrante da atual solução de governo, para o PAN, e é nessa continuidade que a esquerda assiste ao modo como perde um monopólio moral do protesto e da política baseada nos bons sentimentos (até ao dia em que se venha a descobrir, eventualmente, algum «podre»). Acresce ainda a presunção saloia de superioridade intelectual, ainda na linha simultaneamente ingénua e pérfida de se achar que a “cultura” é automaticamente uma coisa de esquerda.

Há, apesar disto, uma questão mais complexa. É no preciso momento em que a esquerda se torna uma força de gestão do capitalismo, que se torna mesmo incapaz de pensar algo que não seja o capitalismo (ver a nossa crítica ao ABC do Socialismo) que se começa a fragmentar o seu apelo de protesto. Quer isto dizer que o PAN é uma alternativa política à vitória pírrica da esquerda? Pelo contrário. O que há de extremamente dúbio no PAN não são os seus anedotismos ou a sua falta de “espessura ideológica”. É antes o modo como este conseguiu sintetizar ambos os aspectos da recusa da política mencionados em cima – o modo como este consegue desenhar uma moral moderna da produtividade capitalista. A reprodução do capitalismo não irá ocorrer através dos Santana Lopes e André Venturas da vida; pelo contrário, o modo como o capitalismo se emancipa dos capitalistas, como o sistema supera a necessidade de uma sua gestão por parte da corrupção da burguesia, passa precisamente pela emergência ideológica de elementos como o PAN e semelhantes. É precisamente na mais abjecta ideologia da reprodução do capitalismo que este se consegue fazer passar enquanto alternativa a si próprio.

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