O ano em que o céu caiu sobre a terra

Na ocasião do falecimento de Nanni Ballestrini, republicamos este texto anteriormente publicado no defunto Stasis.club. Nanni Ballestrini foi escritor experimental, poeta visual, artista plástico e um dos militantes da Autonomia Operaia mais capaz de traduzir numa prática artística a estética e a experiência das lutas dos anos 70 em Itália. Em Português encontra-se publicado na Fenda o seu magnífico texto “Queremos Tudo”.

  1. É sabido que Lenine residou em Zurique durante a I Guerra Mundial, a poucas ruas do Cabaret Voltaire, onde um grupo de jovens antimilitaristas de várias nações agitava a cidade, munidos de uma palavra aparentemente carente de qualquer significado e, por isso mesmo, aberta a todos os significados possíveis: Dada. Entramos porém no domínio do mito quando passamos ao jogo de xadrez entre Lenine e Tristan Tzara, no qual a provocação dadaísta teria levado de vencida a disciplina bolchevique. A improvável partida materializar-se-ia efectivamente cerca de sessenta anos depois, em Bologna, vitrine do Eurocomunismo, quando surgiu nas páginas da revista A/traverso o termo “Maodadaísmo”. No primeiro número da revista, publicado em 1975, pareciam finalmente reunidas as condições objectivas para uma longa marcha que tão cedo não chegaria ao fim: “O Mao-Dadaísmo é o ponto de vista expresso pelo Presidente idoso-criança no diálogo com a sua neta,  quando a aconselha a não ir à assembleia e faz o elogio da revolta contra a boa educação cívica, contra a política-dever, contra a participação institucional.”
  2. Operando num terreno previamente explorado pelas vanguardas históricas, apropriando-se tanto da crítica situacionista da reificação como de algumas propostas pós-estruturalistas, A/Traverso dedicou particular interesse a temas relacionados com o corpo, a diferença, a marginalidade, o inconsciente ou o desejo. Os seus signos converteram-se em som quando, atravessando o espelho para aterrar no número 41 da Via del Pratello, Alice se fez onda magnética na frequência 100.6. Fundada em 1976 e batizada por inspiração deleuziana, a partir das reflexões desenvolvidas em A lógica do sentido, a Rádio Alice operava em articulação com A/traverso, e o seu programa estava já contido na primeira frase lançada ao microfone: ‘Este é um convite a não se levantarem esta manhã e permanecerem antes na cama com alguém, a fabricar instrumentos musicais e máquinas de guerra.’
  3. Alice não transmitia nada previamente gravado a não ser a música. Associando num único fluxo a guerrilha semiótica e a comunicação subversiva, aspirava a libertar a potência da linguagem de todos os constrangimentos protocolares e disciplinares, para inventar um novo idioma capaz de dar voz aos desejos ingovernáveis que percorriam o seu tempo. Entrevistas, comentários ou notícias, tudo era transmitido em directo, tal como os telefonemas dos ouvintes: alguém se queixa porque a sua bicicleta foi roubada, uma voz indigna-se com os preços do haxixe ou do LSD, um estudante anuncia uma festa em preparação, um militante relata uma manifestação que acaba em confrontos com a polícia. A vontade de não deixar nada fora do âmbito da discussão alargava-se ao campo das relações e da intimidade, que a riqueza da vida quotidiana precipitara para o centro de uma análise cada vez mais ambiciosa: “As nossas necessidades, a sexualidade, o corpo, a vontade de ficar a dormir a manhã toda… o desejo. Tudo isto foi subterrado pelos séculos, submerso, negado, não dito. A chantagem da miséria, a disciplina do trabalho, a ordem hierárquica, o sacrifício, o interesse geral, tudo isto silencia a voz do corpo. Todo o nosso tempo desde sempre e para todo o sempre dedicado ao trabalho. Para além da miséria, contra o trabalho fala o corpo, o desejo, a apropriação do tempo de trabalho. A Rádio Alice instala-se neste espaço e por isso é obscena. Outro telefonema em directo: o mais belo alguma vez recebido, ninguém fala, toca apenas um saxofone durante alguns minutos. Estamos certos de que era Maiakovsky.”
  4. Tanto a Rádio como a revista integravam a Autonomia Operária, uma rede de colectivos, grupos, espaços ocupados e práticas comunicativas, criada em 1973 por iniciativa de Comités Operários de algumas das maiores fábricas italianas (Alfa-Romeo, Pirelli, Petroquímico de Porto Marghera, Sit-Siemens, FIAT e ENEL). A Autonomia tinha como referência fundamental a recusa do trabalho – expressa no ataque operário à linha de montagem, através de um vasto repertório feito de greves selvagens, absentismo e sabotagem -, mas rapidamente se estenderia a outros pontos do território metropolitano, acolhendo ou dinamizando várias formas de luta anti-hierárquica que percorriam a formação social italiana: a crítica da escola, da prisão ou do hospício, o feminismo e o ataque ao patriarcado, a auto-redução das tarifas eléctricas, dos transportes, das rendas de casas ou dos bilhetes de cinema, a resistência à repressão policial e a acção directa antifascista. O termo ‘laboratório’ foi frequentemente empregue para descrever a sua natureza experimental e a tensão, que a percorria da cabeça aos pés, entre a crítica das relações de exploração/dominação e o ensaio de uma vida outra. Uma formulação de Mário Tronti em Operários e Capital, citada no primeiro número de A/traverso, assinalava uma disponibilidade partilhada para navegar sem pontos de orientação: ‘A aventura de quem busca outro caminho para a Índia e, por isso mesmo, descobre outros continentes, está muito próxima da nossa actual maneira de proceder.’
  5. Enquanto a maioria das organizações de extrema-esquerda se afadigava para fazer o calendário recuar a 1917, o terreno privilegiado de análise da Autonomia Operária foi a crise do capitalismo tardio e as vicissitudes da sua reestruturação à escala mundial. A atenção mais imediata dos autónomos dirigiu-se acima de tudo às formas de socialização emergentes entre os jovens das grandes metrópoles (o “proletariado juvenil”), um novo continente para o qual não existia ainda uma cartografia rigorosa: desempregados ou mal empregados das grandes metrópoles industriais, jovens operários que não queriam trabalhar, estudantes que criticavam a instituição escolar, mulheres fartas de assegurar a reprodução da força de trabalho, intelectuais malditos de toda a ordem. Esta multiplicidade de singularidades, um “exército vermelho de ténis e calças de ganga”, para quem a tomada do palácio de inverno era um desígnio secundário, deu forma à “autonomia difusa”, um sujeito político de contornos fluídos, dedicado à “ilegalidade de massas”, fosse ela o exproprio de supermercados, a ocupação de casas devolutas ou a organização festas de rua não autorizadas, que levavam milhares de jovens da periferia ao centro das grandes cidades e acabavam frequentemente em confrontos com a polícia.
  6. A Autonomia encontrou em Bologna um território pleno de especificidades, onde a massificação era mais estudantil do que operária e o PCI dominava as instituições locais e regionais. A/traverso procurou nesse contexto desenvolver uma análise do processo de formação e transmissão de saberes, delineando o perfil de uma força de trabalho técnico-científica crescentemente inserida na produção, mas assinalando também a difusão da fábrica no território e a composição de um novo sujeito produtivo, caracterizado pela densidade das suas práticas de sociabilidade e comunicação. Num terreno privilegiado para a experimentação técnica e política em torno da forma radiofónica – os 16 quilómetros de alcance do velho emissor militar utilizado cobriam uma área de grande concentração populacional jovem – e para a teorização de novas práticas linguísticas e comunicativas, tornou-se possível antecipar o impacto do processo de automatização em curso e o alcance de uma reestruturação produtiva assente na crescente informalidade do trabalho. No preciso momento em que o futuro parecia tornar-se menos longínquo, Alice estava em condições privilegiadas para anunciar ao mundo que finalmente o céu caíra sobre a terra.
  7. Num contexto de crise, marcado pela confluência do PCI na área da governação, ao abrigo do “compromisso histórico”, a política de austeridade e o reforço do aparelho repressivo precipitaram uma sucessão de confrontos particularmente ásperos no início de 1977. Em resposta à Lei Malfatti (que visava acabar com a possibilidade, conquistada uma década antes, de cada estudante organizar o seu próprio plano de estudos) várias universidades foram atravessadas por uma vaga de contestação, que se radicalizou quando, a 1 de Fevereiro, militantes do partido fascista Movimento Sociale Italiano (MSI) invadiram a Universidade de Roma La Sapienza, assassinando a tiro um estudante da Faculdade de Letras, Guido Bellachioma. A Universidade foi imediatamente ocupada e no dia seguinte uma manifestação estudantil incendiou a sede romana do MSI, culminando num tiroteio com agentes da polícia. A 5 de Fevereiro, uma assembleia estudantil lançou um apelo à ocupação de todas as universidades do país, convidando o proletariado juvenil romano a fazer de La Sapienza uma zona libertada. Em poucos dias as ocupações de faculdades espalharam-se como uma mancha de óleo, sob uma chuva de insultos e delações nas páginas dos jornais, onde a custo se distinguiam as declarações governamentais dos comunicados do PCI, contra a “minoria extremista” por trás dos “actos isolados de violência”.
  8. Foi nesta situação bastante particular que, a 17 de Fevereiro, a Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL, próxima do PCI) decidiu realizar um comício na Universidade de Roma, numa demonstração de força que visava dissuadir os ocupantes e “normalizar a situação”. Cercado por um numeroso serviço de ordem e algumas centenas de militantes do PCI, que haviam passado a manhã a remover das paredes frases pintadas pelos ocupantes, o secretário-geral da CGIL, Luciano Lama, discursou a partir de um camião de som de alta potência, capaz de se sobrepor aos assobios e às palavras de ordem lançadas pelos estudantes, a quem foi recusada a palavra. Lama denunciou a irresponsabilidade da ocupação, passando em seguida à defesa da política de austeridade e sacrifícios levada a cabo pelo governo da Democracia Cristã, com o apoio do PCI. À volta do comício, nas escadarias das faculdades ocupadas e no pátio da universidade, acumulara-se uma considerável multidão, onde predominavam os “Índios metropolitanos” (um grupo de agitação formado no âmbito da ocupação) e os colectivos de faculdade, mas também alguns Comités Operários, que ali haviam acorrido para responder a qualquer tentativa de desalojo, policial ou sindical. A meio do discurso, pontuado por insultos recíprocos e palavras de ordem cada vez mais hostis, a tensão latente descambou em confronto. Respondendo ao que considerou ser uma provocação – o incêndio de um boneco que retratava o dirigente sindical – o serviço de ordem procurou dispersar os ocupantes, dando início a uma dura batalha campal que culminou na expulsão dos sindicalistas e militantes do PCI da zona universitária. À noite, a pedido do Reitor e com o apoio incondicional do Governo e Parlamento, a polícia pôs fim à ocupação, efectuando dezenas de detenções e provocando centenas de feridos.
  9. A resposta do movimento estudantil não se fez esperar e foi convocada para o dia 12 de Março uma grande manifestação nacional, a realizar em Roma, que deveria agrupar todas as componentes da autonomia difusa: estudantes de todas as universidades e liceus de Itália, colectivos de mulheres, grupos informais como os Índios Metropolitanos, os Círculos do Proletariado Juvenil e os vários Comités Operários formados em fábricas um pouco por todo o país. Entre a expulsão de Lama e aquela data, porém, os acontecimentos conheceram uma nova radicalização. A 5 de Março, uma manifestação saída da Universidade de La Sapienza sofreu uma violenta carga policial, a que se seguiram horas de confrontos duríssimos nas ruas da capital, com vários focos de guerrilha urbana e a destruição de diversas agências bancárias, sedes de confederações patronais e espaços ligados à extrema-direita. Três dias depois, uma enorme manifestação organizada por colectivos feministas percorreria igualmente as ruas da capital, enfrentando uma dura carga policial e exprimindo a especificidade e autonomia da luta das mulheres no contexto do movimento, que culminou na expulsão violenta dos próprios membros da Autonomia Operária acusados de comportamentos machistas.
  10. Mas foi em Bologna que o ano de 1977 assumiu a sua mais dramática dimensão. A 11 de Março, na véspera da manifestação nacional, uma organização juvenil ligada à Democracia Cristã, Comunione e Liberazione, que há meses combatia o movimento estudantil e se opunha às ocupações de faculdades, realizou uma assembleia no Instituto de Anatomia. Alguns estudantes foram agredidos à porta, após terem tentado distribuir um panfleto contra a repressão. Quando a notícia circulou pela zona universitária, começaram a acorrer milhares de estudantes ao centro da cidade, entretanto repleto de agentes policiais.  Após os primeiros confrontos, com pedras e cocktails molotovs atirados de um lado e gás lacrimogéneo do outro, a meio da manhã um agente dos Carabinieri disparou vários tiros contra um grupo que fugia. Três deles acertaram nas costas de um estudante de Medicina, Francesco Lorrusso, militante da organização extraparlamentar Lotta Continua. Minutos depois a Rádio Alice noticiava a sua morte e convocava todos para uma concentração na Piazza Verdi, epicentro da zona universitária e habitual local de partida das manifestações estudantis.
  11.  Ao início da tarde já havia barricadas em todas as ruas que desembocavam na Piazza Verdi e uma manifestação composta por milhares de estudantes de cara tapada, carregados de cocktails molotov e barras de ferro, dirigiu-se à sede da Democracia Cristã. Ao primeiro embate com o dispositivo policial ali concentrado, o centro da cidade ficou coberto de gás lacrimogéneo e os manifestantes dividiram-se, dando início a várias horas de guerrilha urbana, ao longo das quais foram atacadas  a redacção do jornal regional Il Resto del Carlino, uma livraria de extrema-direita, as sedes do PCI e da Democracia Cristã, esquadras policiais, escritórios de várias empresas e associações patronais. Várias lojas de armas foram saqueadas, bem como supermercados e grandes armazéns. A estação ferroviária foi palco de confrontos particularmente violentos, incluindo trocas de tiros, na sequência de um corte da linha de comboio que ligava o Sul ao Norte de Itália. Durante a noite a Piazza Verdi tornou-se o local de convergência dos manifestantes, enquanto os restaurantes da zona eram saqueados para assegurar o jantar e se tocava piano nas barricadas. Ao longo de todo o dia a Rádio Alice emitiu apelos à participação na manifestação, informações sobre as movimentações da polícia e notícias sobre os vários actos de saqueio e destruição praticados, bem como uma defesa sem ambiguidades dos actos de violência praticados: “Todos fizeram parte desse gigantesco serviço de ordem que se decidiu formar, colectivamente, preparando os cocktails molotov todos juntos na universidade, ao início da tarde de hoje; todos juntos preparámos as garrafas; todos juntos desfizemos o pavimento da universidade para arranjar pedras; seguimos todos juntos com as garrafas incendiárias e as pedras nos bolsos, porque a manifestação de hoje era violenta, era uma manifestação que todos decidimos que fosse violenta, sem haver necessidade de um serviço de ordem, de pequenos grupos isolados de provocadores, de autónomos, para fazer as acções, porque todos os camaradas participaram em todas as acções que se desenrolaram hoje.”
  12. No dia seguinte, depois de muita gente ter partido para Roma, iniciaram-se novos confrontos que duraram toda a tarde, com barricadas e gás lacrimogéneo, até que os estudantes ainda presentes decidiram pôr fim à ocupação. Durante a noite a Via del Pratello foi cercada pela polícia, que invadiu as instalações da Rádio Alice e interrompeu a emissão em directo, detendo oito membros do colectivo e desligando o microfone a partir do qual estes relatava a operação em curso. Ao mesmo tempo, em Roma, os manifestantes encontraram uma cidade militarizada, com polícia em todas as ruas do centro, o que não impediu novos focos de guerrilha urbana, que provocaram vários detidos e inúmeros feridos.  No dia 13 Bologna foi invadida por blindados do exército, por decisão do Ministro do Interior, Francesco Cossiga, com o apoio incondicional do governo regional e da autarquia, tendo sido decretado o estado de excepção e o recolher obrigatório. Suceder-se-iam buscas domiciliárias e detenções, numa escalada de processos judiciais que se contariam pelas centenas. A restante cronologia de 1977 corresponde a um sucessivo acumular de manifestações proibidas, duros confrontos e mortes (Giovana Masi foi morta a tiro em Maio, por polícias à paisana, numa manifestação que celebrava a vitória obtida no referendo sobre o aborto, realizado um ano antes). Em Setembro, na sequência de um apelo subscrito por inúmeros intelectuais franceses (Sartre, Beauvoir, Foucault, Deleuze, Guattari e muitos outros) realizou-se em Bologna um Congresso contra a repressão, marcado por duros conflitos internos, que assinalou o início do fim deste ciclo de lutas.  O ‘Movimento’ ver-se-ia doravante no impasse entre a passagem à clandestinidade armada, o exílio político e a desmobilização geral, ou, como se dizia então, o “retorno à vida privada”.
  13. Em Abril de 1978, as Brigadas Vermelhas raptaram o primeiro-ministro Aldo Moro, propondo a sua libertação em troca de vários militantes detidos, mas o governo recusou qualquer negociação e Moro foi executado após cinquenta e cinco dias de cativeiro. Um ano depois, a 7 de Abril de 1979, o Estado italiano lançou uma gigantesca operação policial, no curso da qual foram detidas centenas de militantes da Autonomia Operária, acusados de ser os “verdadeiros líderes” e “teorizadores” da violência política ocorrida na década anterior. Pouco depois, a FIAT, cuja gigantesca fábrica de Mirafiori fora palco de inúmeras lutas, despediu de uma assentada mais de catorze mil operários, entre os quais se encontravam os mais combativos e politizados. A conjugação entre repressão política e reestruturação industrial, somada a um surto de heroína entre os jovens das grandes cidades, remeteram o movimento para a defensiva e devolveram ao Estado italiano o controlo sobre o território metropolitano.
  14. O lastro deixado revelou-se em todo o caso suficientemente forte para que subsista ainda hoje, em Itália – a par de uma memória forte relacionada com a conflituosidade social e as estruturas de decisão horizontal – uma vasta área política e cultural composta por diferentes experiências e sensibilidades, com uma assinalável implantação e densidade teórica, das quais os Centros Sociais Ocupados Autogeridos (CSOA) são porventura a mais visível expressão. O facto de a Autonomia Operária, em toda a sua complexidade e diversidade internas, se ter baseado na hipótese – plasmada em conceitos como o de “fábrica difusa” e “operário social” – de que o capitalismo atravessava um amplo processo de reestruturação à escala global, com implicações imediatas ao nível da composição da classe operária e da reconfiguração do território metropolitano, é porventura um elemento a ter em conta no momento de diagnosticar esta resiliência, tantos anos depois, quando as várias organizações clássicas de extrema-esquerda acabaram, ou se converteram em anacrónicas caricaturas, e o PCI se dissolveu em sucessivos arranjos democráticos mais ou menos neoliberais. Essa hipótese, segundo a qual a recusa do trabalho teria como consequência inevitável a crise da lei do valor, antecipou diversos traços da resposta capitalista à crise: a deslocação do investimento  para a periferia da economia-mundo, a tendência para a automatização de partes do processo produtivo, a crescente mercantilização das relações sociais e a reconfiguração da força-trabalho através da sua flexibilização e mobilidade. Desse ponto de vista, e mau grado a derrota do ciclo de lutas sociais que esteve na sua origem, vivemos ainda o tempo da Autonomia.
  15. No que diz respeito ao estilhaço de tempo messiânico que atravessou Bologna em 1977, porém, seria caso para dizer que a derradeira partida de xadrez acabou num empate, visto que tanto Tzara como Lenine foram surpreendidos por um terceiro jogador, disposto a tudo para não deixar cair o seu rei, capaz de virar subitamente o tabuleiro para recomeçar o jogo nos seus próprios termos e que desde então não tem cessado de vencer. Em 1980, um ano após as detenções de 7 de Abril, Nanni Ballestrini escreveu Blackout, um poema de contornos sombriosonde se insinuam a espaços os diversos destinos daqueles que haviam protagonizado este ciclo: a prisão, o desespero, o suicídio, o exílio, a heroína, o regresso a uma espécie de asfixiante normalidade. Ballestrini havia publicado, em 1971, o romance Queremos Tudo, um texto de ressonância épica inspirado nas gestas medievais, no qual um operário proveniente do sul de Itália relata na primeira pessoa as greves selvagens da FIAT, em 1969. O poema de 1980 foi, pelo contrário, inspirado numa forma literária da Grécia Antiga, o threnos, canto fúnebre que assinalava a morte dos heróis do drama trágico: “estes jovens chegaram de outro planeta/ é o universo dos valores de uso que se confronta com a fábrica e a produção / […] não fazem outra coisa senão pensar no dia em que deixarão a FIAT/ e assim que toca a sirene fogem como lebres e assim que podem metem baixa / na cidade desagregada pela imigração tornada desumana pelos bairros ghetto onde a qualidade de vida é dramática / o salário é insuficiente porque a única comparação possível são as necessidades que emergem / os chefes da FIAT nunca viram os operários rir e ficam com uma raiva dos diabos / não ganham amor ao posto de trabalho como nos tempos do milagre económico / em 1979 extinguiu-se também a esperança na fábrica enquanto lugar onde se luta pelo poder”.
  16. E contudo, vinte anos após aquele Settantasette acerca do qual predomina sobretudo o silêncio historiográfico, na contracapa de um livro de curioso subtítulo (La rivoluzione che viene), um testemunho registado em Bologna, deixa em suspenso o final  desta história: “Não conseguimos perceber se vencemos ou perdemos, mas nenhum de nós se sente vencido ou vencedor porque sabemos que isto não acabou assim”.

Para além de Queremos tudo (Fenda: 1998), de Nanni Ballestrini e  Um piano nas barricadas, de Marcello Tarí (Edições Antipáticas: 2014), ambos publicados em português, o leitor poderá encontrar diversos elementos, testemunhos e análises sobre este tema nos seguintes livros:

Nanni Balestrini e Primo Moroni (Org.), 1997, L’Orda d’oro 1968-1977 (Milano: Feltrinelli)

Klemens Gruber, 1997, L’avanguardia inaudita. Comunicazione e strategia nei movimenti degli anni Settanta (Costa & Nolan: Genova)

Nanni Ballestrini, 2001, La violenza illustrata, seguita da Blackout (Roma: Derive Approdi)

Sergio Bianchi e Lanfranco Caminiti (Org.), 2004, Settantasette. La rivoluzione che viene (Roma: Derive Approdi)

Sergio Bianchi e Lanfranco Caminiti (Org.), 2007, Gli autonomi. Le storie, le lotte, le teorie, Vol. I (Roma: Derive Approdi)

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