LSD

UP AGAINST THE WALL, MOTHERFUCKERS! Conversa com Ben Morea

Hell’s Kitchen, Nova Iorque, Julho de 2018

Vittorio Biancardi

Esta conversa foi originalmente publicada em 2018 no Qui e ora.

Na conversa participaram Ben Morea, Vittorio Biancardi e Matt Peterson.

Pedimos a Ben Morea, uma figura importante do grupo subversivo Up Against the Wall, Motherfuckers e um dos fundadores da revista Black Mask, para nos falar da sua história, com um olhar particular sobre a relação que o grupo mantinha com substâncias psicadélicas e com os principais representantes da contracultura. Allen Ginsberg, Timothy Leary, Valérie Solanas, o grupo Diggers e a organização política Weathermen, Jerry Rubin, e também Fernanda Pivano, Ken Kesey, Andy Warhol e os Jefferson Airplane. A história de todos esses mitos está entrelaçada com a de Morea, uma figura incontornável na história do movimento autónomo de Nova Iorque.

Este encontro aconteceu graças a Matt Peterson, que também participou na conversa. Matt e outros companheiros gerem o centro social Woodbine e a livraria-cafetaria Topos, no subúrbio de Queens, em Ridgwood (Brooklyn, Nova Iorque).

Depois da entrevista percebemos por que a história da autonomia de Nova Iorque é, em certo sentido, a história de todos nós.

Folheando um livro que fala sobre a história do grupo Up Against the Wall, Mothefuckers.

Ben: Esgotou-se em apenas três semanas. Não reeditaram mais. Toda a gente queria aquele livro. Agora podes comprá-lo online por 3.000 dólares. E todas as edições da revista [Black Mask] são vendidas a 300-600 dólares. Estão cheias de cartazes magníficos… Fizemos tudo aquilo entre 1966 e 1968-69. Três anos.

Vittorio: Foi cedo, comparando com a emergência do movimento na Europa. Quando leio a Black Mask, penso imediatamente na Re Nudo e em outras revistas italianas de 1970. Vocês foram, num certo sentido, percursores. Usavam LSD para fazer tudo isto?

B: Na verdade, usávamos LSD a todo o tempo. Mas fazíamos isto [a Black Mask] apenas como parte da nossa vida, não tomávamos microdoses de LSD e depois trabalhávamos nos artigos; nós estávamos sempre a consumir psilocibina, mescalina e, sobretudo, LSD. As drogas psicadélicas eram parte integral das nossas vidas.

V: [Apontado para um cartaz da Black Mask] Estas imagens são claramente psicadélicas… O vosso grupo é um dos raros exemplos de vanguarda revolucionária da época, nos anos 60, não é?

B: Éramos os únicos a conceber o LSD como forma de vida, e a utilizá-lo para fins revolucionários. Sim, acho que éramos o único grupo revolucionário americano a fazer isso.

V: E a Weathermen?

B: Chegaram depois, éramos amigos. Antes de criarem a Weathermen, passavam muito tempo connosco. É por isso que fizeram tantas coisas como nós. Originalmente, eram estudantes da SDS [Students for a Democratic Society], e nós fazíamos parte da história da SDS, da secção de Nova Iorque. Eles costumavam vir e ficar connosco, é por isso que têm este estilo particular de militância.

V: O estilo gráfico de alguns manifestos é parecido, de facto.

B: Sim, viviam connosco. Depois aproximaram-se mais do marxismo-leninismo, e acabámos por nos desentender. Mas continuámos amigos.

V: E depois começaram a tomar LSD juntos…

B: Sim. Mas eles não consumiam em grande quantidade. A vida deles era sobretudo uma vida de estudante. Não viviam como nós a todo o tempo…

V: Vocês não eram estudantes?

B: Não, não éramos. Nós andávamos na rua. Éramos revolucionários profissionais. A nossa cena era fazer a revolução. Era a nossa ocupação. Não tínhamos trabalho, não éramos estudantes, tudo o que fazíamos era militância. Uma militância radical. Mesmo, total. De manhã à noite, todos os dias. Dávamos comida grátis às pessoas, tínhamos um apartamento comunal onde as pessoas ficavam sem pagar (chamávamo-lo de “crashpads”). E tudo o que fazíamos era gratuito. Por isso podíamos permitir-nos a tomar LSD todos os dias, porque esta era a nossa vida. Não tínhamos emprego ou escola. Vivíamos, era tudo. Revolução e LSD. A nossa vida não era estruturada, andávamos apenas pela rua. Éramos bandidos, ladrões. Era assim que financiávamos as nossas acções.

V: Assaltos, roubos a apartamentos?

B: Sim.

V: Dizias-me há pouco que eram muito diferentes da Internacional Situacionista francesa.

B: Sim, eles eram sobretudo intelectuais. Nós, não. Éramos mais pela acção. E eles não gostavam disso. Nós não tínhamos ideologia. A maioria de nós era anarquista, mas não forçávamos ninguém a partilhar a mesma ideologia. Éramos apenas militantes, revolucionários. Os situacionistas eram totalmente ortodoxos, tinham todos de pensar o mesmo. Se pensavas de forma diferente, acompanhavam-te à porta. Mas nós… Podias pensar o que querias, era apenas militância.

V: Qual era a vossa relação com a ala mais leninista do movimento?

B: Éramos amigos de alguns mais da extrema-esquerda. Mas da maioria deles, os estalinistas, éramos inimigos.

V: E os trotskistas?

B: Não fizemos nada com eles, eram muito dogmáticos. Mas eram presentes, isso é certo. Havia também estalinistas, marxistas-leninistas… E à medida que ficavam cada vez mais estruturados, íamos ficando cada vez menos amigos. Gostávamos de alguns, o trabalho de Rosa Luxemburg e de Alexandra Kollontai. Elas eram mais próximas do anarquismo do que do marxismo.

V: Qual era a vossa relação com o feminismo da altura?

B: Apoiávamos. Mas não éramos parte do movimento feminista oficialmente. A Valérie Solanas era minha amiga. Ela escreveu o manifesto SCUM. Éramos muito amigos, até vivemos juntos. Foi ela que disparou contra o Andy Warhol, e eu fui o único a defendê-la publicamente.

V: Vocês viviam juntos?

B: Ela ia e vinha. Sabia que podia vir a qualquer momento que quisesse, era benvinda em minha casa. Éramos amigos. Não sei, ela vinha e, sabes… Ficava uns dias e depois desaparecia. Conversávamos muito. Lembro-me de uma vez dizer-lhe: Hey Valerie, sabes, já percebi que o teu plano é matar todos os homens, cortá-los aos pedaços… mas eu sou um homem. E ainda estamos aqui a discutir juntos. Ela responde, com uma expressão de como se ainda não tivesse pensado naquilo: prometo-te que serás o último que mataremos. E bom, ainda aqui estou…

V: Alguma vez conheceste o Andy Warhol?

B: Sim, conhecia-o. Ele era horrível.

V: Conheciam-se pessoalmente?

B: Sim. Não bem… Mas ele era um asco. Insuportável, um idiota.

V: Porquê?

B: Por diversas razões. A primeira, porque fazia arte para gente rica. E isso já era suficientemente mau. E depois, porque transformou a arte num produto. Antes dele, a arte não era um produto, apenas vida. Mas ele e o seu grupinho pop-art transformaram a arte num produto para vender. Eu odeio-o, ele é um inimigo. E, um belo dia, ela [Valérie] disparou… BAM! Atingiu-o no estômago. Quase morria.

V: Ontem falámos da relação da contracultura com o movimento político, e da tensão que habita entre estes dois “fluxos” do processo revolucionário. Estamos a viver um momento em que estas duas dimensões estão separadas. Ao mesmo tempo, creio que é fundamental re-articular estas duas dimensões numa espécie de nova forma-de-vida. Nesta procura contínua de harmonia e equilíbrio, que papel podem ter as substâncias psicadélicas? E que papel tiveram na altura? O que mudou e o que podemos mudar hoje?

B: As substâncias psicadélicas representam, de certa forma, esse vínculo de que falas. Dito de outra forma, quando a tua mente se sintoniza com um certo comprimento de onda, é como se tivesses mais em comum… É nesse momento que tomas consciência do quadro geral e, por isso, consegues agarrar o sentido do quadro político com mais lucidez. Ou seja: nesse momento, tudo se torna comum, não é apenas sobre a arte ou a política. A vida em si é colocada no centro da nossa atenção. Por isso, o LSD é uma forma de direccionar a nossa consciência para a vida, enquanto seres humanos. Sim, pode ajudar, sem dúvida…

V: Vocês tentaram fazer isso? O que mudou agora?

B: Sim, nos anos 60. Agora é tudo diferente. O mundo da arte tornou-se puramente comercial. E o mundo político tornou-se mais rígido e menos “cultural”. Eu deixei os dois mundos, fui para as montanhas viver com os índios norte-americanos.

V: Quantos anos viveste nas montanhas?

B: 35 anos. Só voltei para a cidade há dez anos. Havia este lugar, em Beaver Street, mesmo no centro financeiro. Uma mulher chamou-me e disse: “Tens tempo para vir aqui e contar o que se passou nos anos 60?”. Eu não queria voltar, mas uma ou duas semanas depois mudei de ideias. Estava a ficar mais velho, pensei que podia partilhar algumas das experiências sobre o passado. Então voltei, e o primeiro lugar onde fiquei foi Beaver Street. Foram os primeiros a receberem e ouvirem-me. E foi assim que conheci M. e toda a gente… Vinham todos parar a Beaver Street [o grupo chama-se “16 Beaver Group”].

V: Podes falar-me mais sobre esse lugar?

Matt: Começou com alguns artistas que se interessavam por política e teoria crítica. Foi em 1999 ou 2000. Alugaram um armazém juntos, colectivamente, em Wall Street. Era mais ou menos o que é hoje Woodbinei. Ninguém vivia ali, organizavam-se jantares, discussões, apresentações… Era mesmo no epicentro financeiro de Wall Street, ou seja, também não moravam pessoas na vizinhança. As pessoas vinham uma vez por semana, e era Manhattan, em pleno centro da cidade. Era um ponto interessante onde se juntavam diferentes pessoas, artistas, filósofos, activistas, escritores. Não era um lugar comercial, não havia qualquer fim lucrativo. Era um espaço autónomo, independente.

B: Circulava gente muito variada, diferentes formas de pensar. Marxistas, anarquistas, era um lugar aberto…

V: Quanto durou a experiência em Beaver Street?

M: Fechou em 2014, por isso, mais ou menos 14 anos…

B: E foi assim que voltei à sociedade. Mas por 35 anos permaneci anónimo.

V: Desapareceste simplesmente de um dia para o outro?

B: Sim. E por cinco anos vivi no deserto, a cavalo, em fuga, porque o governo estava atrás de mim. Desapareci por 5 anos, depois mudei de identidade… Sabes, precisei do meu tempo. 35 anos e depois decidi voltar.

M: [apontando para o livro] Esta ilustração é interessante. Fala da Action Committee for Immediate Defense (ACID).

B: Sim, ACID. O ácido é parte da luta.

M: Olha, outra: ACID is here for Defense, for Love, for Survival, for Struggle, for Life.

V: Qual era a vossa relação com os grupos da Costa Oeste?

B: Éramos amigos de alguns, por exemplo, dos Diggers, em São Francisco. Sabes quem é Oswley? Foi um dos maiores químicos de LSD que existiu. Ele deu-me o primeiro Orange Sunshine quando o fabricou, e disse-me: “Toma, Ben, isto é algo de completamente novo”. Tomei antes de entrar num avião, e depois comecei a viajar. Uma dose inteira, não uma micro-dose. Tomei e depois estava dentro de um avião – a VOAR.

V: Nessa altura não tomavam micro-doses, então?

B: Não. Sempre doses inteiras.

V: Ontem falaste de Fernanda Pivano, uma das figuras mais importantes na contracultura italiana dos anos 60. Conhecia o grupo de San Francisco Oracle e estava bastante ligada ao grupo Beat da altura. Ela e o seu marido, Ettore Sottsass, trouxeram ideias que na altura floresciam nos Estados Unidos. Chegaste a conhecê-la?

B: Sim, ela veio conhecer-me em Nova Iorque, ficámos amigos. Allen Ginsberg tinha-lhe falado de mim. Estava no meu estúdio e alguém bateu à porta. Abri a porta, e vi uma mulher com ar mediterrâneo, baixinha, que não falava muito bem inglês. Ela perguntou: “És o Ben Morea?”. Eu disse “Sim”, e ela disse “Allen Ginsberg disse-me para vir conhecer-te. Tu és a próxima geração. Disse que deveria conhecer-te”. E assim ficámos amigos. Isto foi em 1965.

V: Então deduzo que também tenhas conhecido o Ginsberg.

B: Éramos amigos há muito tempo. Amigos íntimos. Sim, não partilhávamos a mesma opinião: ele era um pacifista, um não-violento. Eu um anarquista, violento. Tínhamos ambos consciência da nossa diferença, mas isso não nos impedia de cultivar uma amizade. Um dia estávamos juntos numa apresentação e ele começou a pronunciar o mantra hinduísta “Om”. Ele fazia “OOOOMMMM” e eu comecei a responder “AAAAARMMMM”. Foi cómico. Ele era muito divertido. Tinha um incrível sentido de humor. Era realmente um tipo genial, éramos muito amigos. Sabia que eu era violento, mas amava a minha energia.

V: Há um texto onde falas da tua posição sobre a violência política, não?

B: Sim, este [apontando para o livro]. Conheces a banda Jefferson Airplane? Eles inspiraram-se neste texto para escrever a música “We’re Outlaws”. Foi a primeira vez que a palavra “motherfuckers” foi pronunciada publicamente na televisão americana. Ninguém pronunciava a palavra na televisão. Eles iam cantar a música e os responsáveis do canal televisivo disseram: “não digam essa palavra”. E eles disseram “ok”, mas no final acabaram por dizê-la. Era a primeira vez que “motherfuckers” estava na televisão…

[apontando para outra imagem] Vês este? É o meu preferido. Fiz a colagem e o poema, e assinei com o pseudónimo Henry, o nome do esqueleto da ilustração anterior.

M: Então nunca existiu realmente um Henry no grupo?

B: Não, era um código. Imagina, quando queríamos dizer algo ao telefone, dizíamos “Então, o Henry vai estar lá pelas 16h”, por exemplo. Tínhamos diferentes formas de ligar uns aos outros. Cada membro da Família tinha um nome diferente na lista de telefónica e uma caixa de segurança com uns documentos falsos e uma arma. Mas ninguém sabia onde estava escondido o cofre de cada um. Estávamos completamente loucos.

V: [Folheando o livro] Lower East Side Defense, um outro acrónimo para LSD. O LSD era realmente importante, não?

B: Sim. Era uma forma de nos reconectarmos com a mente e com o que estávamos a sentir. A sociedade separa a mente e os sentimentos. Nós reconhecíamos no LSD um meio para restabelecer a ligação entre os dois. Para reunificá-las, na sua totalidade.

V: Chegaste a cruzar-te com Timothy Leary?

B: Sim, conheci-o. Passamos algum tempo juntos na casa de Herman Hesse, perto de Lugano, na Suíça italiana. Eu e a minha companheira ficámos ali uma semana. Convidou-nos porque sabia que estávamos pela Europa. A primeira vez que nos encontrámos foi em Nova Iorque. Algumas pessoas na nossa Família costumavam ir para Millbrook (Nova Iorque), que era o centro da cultura psicadélica nessa altura.

V: Chegaste a ir a Millbrook?B: Nunca fui. Não costumava sair da cidade assim tão frequentemente, estava muito envolvido nas ruas de Nova Iorque nesse momento. A vida deles não era militante, de todo. Mas alguns do nosso grupo fizeram parte de Millbrook. Alguns eram da SDS, outros faziam parte do grupo de Murray Bookchin, antes de deixaram todos esses grupos e se juntarem à Família. Eles acabaram por deixar todos esses grupos e juntar-se a nós mas, na verdade, havia gente de vários grupos, como os Diggers. O pessoal da Califórnia gostava do que estávamos a fazer…

V: Como era a vossa relação com os Diggers?

B: Éramos amigos. Lembro de uma vez ficarmos uma semana em São Francisco. Peter Coyote era um amigo, Peter Berg também. Os dois Peter. O primeiro morreu mas o segundo ainda está vivo. Falei com ele há um ano. A sua companheira passou algum tempo connosco nas montanhas do Colorado. Ele falou-lhe da forma como vivíamos e disse-lhe que deveria ir lá conhecer-nos. Vivíamos a cavalo, sem casa. Apenas caçávamos para comer. Nada de mercearia, casa, por 5 anos.

V: Disseste-me que viveste com os índios norte-americanos por 35 anos. Depois de 5 anos a cavalo, foste viver para a reserva. Participaste em cerimónias?

B: Sim.

V: Alguma vez lhes contaste a tua história?

B: Não, não queria que a história fosse pública na altura.

V: Ainda tens contacto com eles?

B: Sim. Amanhã vou para o Colorado, para uma cerimónia. Estou sempre a ir lá.

V: Tens duas casas, uma aqui em Manhattan e outra no Colorado.

B: Sim, a minha família vive ali.

V: E as tuas pinturas?

B: Os meus quadros são sobretudo de natureza espiritual. Pinto há quase 60 anos.

V: Conheste Ken Kesey?

B: Sim, mas não estávamos muito de acordo. Era um tipo muito enquadrado. Na verdade, não me sentia muito confortável com ele. Não gostava da forma como usavam o LSD. Para ele e o seu grupo [Merry Pranksters], não passava de entretenimento. Não estavam minimamente interessados na política. Nem sequer era uma questão espiritual como era para Leary, por exemplo. Para mim o LSD está ligado a uma dimensão espiritual. E procurávamos dar-lhe um uso revolucionário. Para Kesey não era espiritual nem revolucionário, era entretenimento. Para mim, era espiritual e político. Para Leary, mais espiritual. O seu slogan “turn in, tune on, drop out” é político, de certa forma. Leary queria ser subversivo.

Eu sou um animista revolucionário. Para mim, trata-se de articular a dimensão espiritual com a política. Estou mais confortável com a espiritual, porque nela posso integrar a política. Mas a outra dimensão, que é materialista e de entretenimento, não posso suportar.

V: Quando os Motherfuckers deixaram a cidade, muitos foram viver para comunas…

B: Sim. Black Bear foi a mas importante.

M: Mas alguns deles passaram a abraçar o aspecto mais hedonista da contracultura?

B: Não. Black Bear sempre teve uma dimensão política.

M: Kesey vivia no Colorado?

B: Não, vivia entre Oregon e Califórnia.

V: Quantas pessoas faziam parte dos Motherfuckers?

B: Muitas pessoas perguntam isso. Eu diria que o grupo era formado por umas 50 pessoas, em torno das quais giravam outras 50; e em torno dessas 100 pessoas giravam outras 50. Então, no total, mais ou menos 150 pessoas, diria. Tínhamos grupos na Costa Oeste, em Berkeley, e em Black Bear [a comuna]. Havia muitos que diziam pertencer aos Motherfuckers. Mas o grupo nunca foi assim tão grande.

Comecei a chamá-lo de “grupo de afinidade”. Por exemplo, nós, três pessoas podíamos constituir um; podemos decidir fazer algo juntos, sem dizer nada às outras pessoas no grupo. Ninguém podia trair-te, porque tu mantinhas o segredo neste pequeno grupo em quem confiavas. Então, o grupo nunca poderia ser infiltrado. Nos Motherfuckers havia quatro grupos de afinidade, e não sabíamos em que é que cada grupo estava concentrado.

Não entravas como membro. Podias orbitar em torno do grupo e, ao mesmo tempo, não pertencer realmente ao grupo. Alguém podia fazer um texto e assinar Motherfuckers. Não havia um comité central, não tinhas de perguntar se querias usar o nosso nome. Podias usá-lo à vontade, não nos importávamos, não queríamos saber. Não havia nenhum controlo, nenhuma organização. É por isso que usamos o termo Família, FAMÍLIA, em vez de organização. E estávamos a fazer isto nos anos 60, nos Estados Unidos. Fomos os primeiros.

M: Nos Estados Unidos, o movimento era constituído sobretudo por leninistas e maoístas. Não há nada equivalente aos Motherfuckers dentro do movimento anarquista, e mesmo na Costa Oeste, era um pouco mais hippies.

B: Sim, na Costa Oeste eram mais hippies. Nós também andávamos com os hippies. Se nos visses nas ruas, podias pensar que fazíamos parte do movimento hippy, mas não.

V: Vocês eram mais “hippies violentos”.

B: Exacto! Por isso usávamos o slogan “Armed Love”. Capisc’? [em italiano]. Fazíamos parte da love generation, mas estávamos armados. Um dos nossos símbolos mais importantes era a figura de Gerónimo. Era uma das nossas imagens-chave.

V: Em Itália, nesse período, também não existia nenhum grupo como os Motherfuckers. Vocês foram os primeiros, acho.

M: O estilo dos Motherfuckers chegou a Itália em 77. Mas os Índios Metropolitananos, de onde vem esse imaginário?

B: O imaginário deles foi seguramente inspirado no nosso.

V: Sim, e em filmes western e bandas desenhadas.

B: Antes perguntávas-me sobre o LSD. [apontando para o livro] Escrevi parte deste artigo quando estava no avião, a viajar com Orange Sunshine.

M: Ben, como é que descobriste o LSD?

B: Fazia parte do nosso mundo. Como te disse, alguns de nós estavam em Millbrook e muitos conheciam pessoalmente Tim Leary.

[…]

Sim, mas… Era espiritualmente muito próximo a Gerónimo. Salvou-me a vida. E a mulher que me adoptou como filho quando fui viver com os índios norte-americanos, era da família de Gerónimo. Entendes esta estranha coincidência?

M: E quantos de vocês foram viver para o Novo México?

B: Não me recordo, acho que éramos uns quinze. E íamos apanhando pessoas pelo caminho. Acabámos por ser mais ou menos cem a ir para as montanhas.

M: Uau, eram muitos. Todos de Nova Iorque?

B: Não, não todos. Alguns vinham de Nova Iorque, outros da Costa Oeste, outros do Texas. Começámos uma nova vida, longe da cidade.

V: Bem, Matt, Ben, prometam-me que vêm a Itália nos próximos meses. Estamos a tentar organizar uma espécie de “tour” em algumas cidades italianas importantes. Seria incrível que pudessem vir falar a Roma, Milão, e talvez Florença e Veneza. Estamos à vossa espera!

M & B: Seria incrível!

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