25 de Abril de 2019 em Florença

RI

O 25 de Abril marcou o final da ditadura fascista tanto em Itália (1945) como em Portugal (1974). Hoje, em ambos os países, esta data tornou-se uma festa nacional, o dia em que as instituições democráticas encenam um teatro ritual que tem como função celebrar-se a si mesmas, revivendo o mito heróico da sua fundação. Não muito diferente do que o dia da nação representava para o Estado Novo. Como triste paródia deste espetáculo, os vários grupos da esquerda mais ou menos radical organizam o seu próprio teatro auto celebrativo no qual encenam os seus próprios mitos de heroísmo revolucionário. Apesar das aparentes diferenças, todos convergem em celebrar o  passado enquanto garantia do status quo presente. Por estes teatros, só se deixa enganar quem quer. Por isso, que já ninguém queira saber do 25 de Abril não é para nós motivo de surpresa ou indignação.

1945 e 1974 estão muito distantes de nós. Hoje os grupos fascistas são minoritários e desorganizados. Mas vivemos no tempo em que a democracia, aquela mesma que tantos celebram no 25 de Abril, está a adquirir características cada vez mais autoritárias e nacionalistas. Não são só Trump, Bolsonaro, Erdogan, Orban e Salvini, mesmo que estes sejam os representantes mais visíveis desta tendência, mas também todos os partidos tradicionais que, para não perder votos para o “populismo de direita”, implementam programas de retrocesso social. Por este motivo, parece-nos especialmente grave que o dia da liberdade seja esvaziado em retórica e rituais.

Em Florença, cidade onde estudo, fizemos esta reflexão e decidimos que queremos um 25 de Abril diferente. Não nos revemos na celebração das instituições nem no desfile da esquerda, mas achamos que é necessário aproveitar este dia simbólico para praticar com gestos o que tantos fingem celebrar com palavras. Anunciámos uma manifestação com o objectivo de invadir o palco da celebração oficial organizada pelo município, e deixar falar todos os grupos sociais a quem é sempre negada a palavra. Como seria de esperar, a manifestação foi proibida pela câmara. Assim, enquanto o presidente da câmara discursava sobre democracia e liberdade, centenas de estudantes, imigrantes e outros excluídos enfrentavam, sem recuar, as bastonadas da polícia, tentando chegar aos empurrões à festa onde não eram bem vindos. Não conseguimos cumprir a nossa ameaça de tomar o palco, mas mostrámos que o único modo de dar algum sentido a esta data não é com discursos, mas com atos de revolta.

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