Terminator 2, ou O Capítulo Inédito do Capital

Toda a gente conhece a história de Terminator 2. No primeiro filme, um autómato enviado do futuro procura assassinar Sarah Connor, uma jovem norte-americana que irá, no futuro, dar à luz John Connor, o líder da resistência humana à insurreição da inteligência artificial. In extremis, a resistência consegue também enviar um dos seus soldados, que acaba por desenvolver uma relação com Sarah enquanto a protege do Terminator, tornando-se no pai de John Connor. A sequela começa anos mais tarde. Sarah está detida num hospital psiquiátrico. John, adolescente, é um pequeno marginal entregue a uma família adoptiva. Do futuro chega um novo autómato, mais sofisticado e poderoso, com a mesma missão, mas a resistência consegue desta vez enviar também a sua própria máquina de matar, o T800, o mesmo modelo de terminator que no primeiro filme tentava assassinar Sarah Connor.

Em 1863/64, Karl Marx trabalhou num capítulo para o rascunho do primeiro volume d’O Capital, que não surge na versão final da obra. Como sucede com os Grundrisse – um outro grupo de textos não publicados, prévios a’O Capital –, o que Marx deixou inédito acaba por ser tão ou mais importante do que aquilo que deixou publicado. O desenvolvimento histórico do capitalismo inverteu os critérios de pertinência do trabalho de Marx, e hoje em dia serão precisamente as considerações que Marx entendeu serem demasiada abstractas e embrionárias para serem divulgadas no seu próprio tempo aquelas que mais lucidamente comentam o período que vivemos. O “sexto capítulo inédito d’O Capital”, como se tornou conhecido esse rascunho, caiu no esquecimento e não foi amplamente discutido até aos anos 60, quando foi redescoberto por uma nova geração de revolucionários ansiosa por encontrar novas armas teóricas e críticas com que afrontar os limites do seu tempo e das suas lutas.

Felizmente, então, que James Cameron realizou em 1991 “Terminator 2: Judgement Day”, uma obra-prima da sétima arte cujo impacto e relevância política suplanta qualquer outro filme realizado desde então. Terminator 2 é um filme, ou o filme, sobre a subsunção real, sobre as consequências políticas, sociais e existenciais do modo como o triunfo do capital reorganizou a totalidade da vida sob a sua égide.  

O que diz então Marx sobre a subsunção? O “sexto capítulo inédito” vem desenvolver uma ideia já presente no 25º capítulo do primeiro volume d’O Capital, onde Marx fala de uma primeira transição histórica no modo como o capitalismo funciona. Se, num primeiro momento, o lucro que os capitalistas acumulavam com o trabalho dos seus empregados dependia do número de horas que os conseguiam fazer trabalhar, após o surgimento das lutas operárias o lucro passou a depender da intensidade com que conseguiam fazer os operários trabalhar, e das máquinas que conseguiam utilizar para fazer com a produtividades destes aumentasse. Num primeiro momento, os capitalistas competiam entre si através do número de horas que conseguiam fazer os operários trabalhar.  Num segundo momento, passaram a competir entre si através do número de mercadorias que conseguiam que os operários fizessem em cada hora. Marx chama a estes períodos e processos do capitalismo mais-valia absoluta e mais-valia relativa.

O sexto capítulo inédito vem desenvolver esta teoria de outro modo. Se de facto o capital deixa de depender apenas da extensão das horas para depender também da intensidade da produção, então a natureza do trabalho muda também. A fábrica deixa de ser uma associação de artesãos com um saber particular – de sapateiros, por ex. – para se tornar num laboratório de separação e abstração da produção: o operário não faz sapatos, ele coloca rebites, cose solas, etc. Tudo elementos isolados que nunca chegam a corresponder a um saber ligado à totalidade do objecto produzido: para o operário é indiferente se está a fazer um sapato, a vela de um barco, um saco de pão, etc. Mas esta abstração não pára aí. Se de facto a acumulação de mais-valia capitalista depende da intensidade do trabalho, então surgem uma série de novos trabalhos cuja função é meramente organizar a articulação das várias atomizações do processo produtivo. Se de facto cada elemento do processo produtivo é separado e entregue a uma pessoa diferente, então o processo de organizar todos esses elementos distintos torna-se uma função imprescindível das sociedades modernas. E porque é que essa organização há-de estar confinada à fábrica? Se de facto a sistematização da produção dentro da fábrica aumenta os lucros, então a sistematização da vida dos operários fora da fábrica não pode senão fazer a mesma coisa.

É nesse momento que o Capitalismo deixa de ser um modo de produção para se tornar um projecto civilizacional. A lógica de organização da fábrica torna-se na lógica de organização da sociedade, e todos os elementos que a compõem – da saúde à educação, passando pelo entretenimento – passam a estar determinados pelas relações de produção capitalistas. Deixa de existir um capitalismo parasitário sobre a produção para passar a existir um capitalismo que determinou todos os campos da vida, que os estabeleceu enquanto segunda natureza, que afirma que a alienação e a separação das sociedades modernas são benesses do desenvolvimento. Não existe o mundo e depois o capitalismo, pelo contrário, todo o modo como concebemos o que é uma sociedade, o que é fazer coisas, o que somos e como somos é já determinado pelo modo como o capital organiza a nossa vida.

Não só se dá essa transformação, como a certo momento toda essa infraestrutura de reprodução do capitalismo se autonomiza e assume uma lógica própria. A rede de fábricas, escolas, hospitais, prisões, centros comerciais, transportes públicos e privados, espaços de comércio não consiste em outra coisa senão uma gigantesca fábrica de criação de lucro. Mas e o que acontece quando esse lucro se torna financeiro, ou seja, quando deixa de depender exclusivamente do valor extraído da troca de mercadorias? Então aí essa infraestrutura revela o seu papel fundamentalmente político. A sistematização da intensidade da produção é uma função essencialmente política, que surge enquanto resposta às primeiras lutas operárias contra a duração do dia de trabalho.

Marx chama a esse processo a transição entre a subsunção formal do trabalho – a submissão das técnicas de produção à exploração capitalista – e a subsunção real do trabalho – o modo como o capital reorganiza todas as dimensões existenciais e culturais da produção.

Regressamos ao Terminator 2: como se liga o filme a tudo isto?

Comecemos pelo início. Terminator 2: Judgement Day representa um momento, num futuro quase imediato, onde a tecnologia ganhou autoconsciência e tomou o poder, iniciando uma guerra contra a humanidade. O que motivou esta ocorrência? A mobilização, pelo capitalismo, da tecnologia enquanto parte orgânica do capital, enquanto possibilidade de substituir a imprevisibilidade política do trabalho humano. Exemplo simples: duas empresas, com o mesmo número de trabalhadores, produzem o mesmo produto – frigoríficos – e disputam o mercado. Os trabalhadores da empresa A entram em greve, e a empresa B, temendo que esta se espalhe, decide automatizar parte do trabalho e distribuir o resto dos trabalhadores por tarefas mais simples na linha de montagem automatizada. A empresa A, percebendo que a empresa B consegue assim produzir mais, gastando menos, adopta as mesmas tecnologias, descobrindo um modo de automatizar ainda mais a produção, conseguindo substituir ainda mais trabalhadores por computadores, geridos por um engenheiro. A empresa B, percebendo que o seu modelo de produção automatizada foi melhorado pela empresa A, tem uma ideia genial. Percebe que mais rentável do que fazer frigoríficos é fazer as máquinas necessárias ao modelo de produção que inventou. Deixa então de vender eletrodomésticos para vender um pacote de tecnologias e modos de gestão.

É este o processo de desenvolvimento da tecnologia – da racionalização da técnica. A tecnologia que se autonomiza no Terminator 2, que ganha consciência de si própria, é precisamente a tecnologia do capital – Terminator 2 representa a autonomização do modo de produção capitalista, o modo como este ganha auto-consciência. Essa é, de certo modo, a condição contemporânea. O capitalismo ganhou autoconsciência. Não é a burguesia que instrumenta o capital, é o capital que instrumentaliza a burguesia. O capital reproduz-se a si próprio na medida em que reproduz a sociedade que capturou dentro de si. Na subsunção real, quando todo o trabalho passa a ocorrer dentro do capitalismo, de um modo definido pelo capitalismo, a tecnologia toma de facto o poder, não enquanto elemento autónomo, mas precisamente enquanto expressão material da lógica do capitalismo. Terminator 2 não mostra a revolução das máquinas, pelo contrário, mostra a revolução do capital, onde este deixa de ser um modo de produção para se tornar um modo de existir.

Atentemos no título. Terminator 2: Judgement Day. O dia do juízo final: no Apocalipse Segundo São João, a parte da bíblia que descreve o fim do mundo, a humanidade é chamada ante deus para um julgamento sumário das escolhas éticas que cada um tomou em vida. A história acabou, os livros estão fechados, sobra um lado ou outro, o céu ou o inferno.

No filme, o “dia do juízo final” é como se torna conhecido o dia da insurreição das máquinas, onde estas tomam conta do sistema de armamento atómico e fazem explodir várias ogivas nucleares um pouco por todo o mundo, levando ao aniquilamento imediato de grande parte da população. Um pesadelo da protagonista, Sarah Connor, desvela o evento: um mar de fogo atómico devora um parque infantil, onde várias crianças brincam. 

O simbolismo não podia ser mais claro. O único reduto de actividade humana não sujeito à reprodução do capital – o “brincar”, o fazer lúdico do jogo, não sujeito a qualquer ideia de produtividade – é brutalmente devorado pela autonomização da técnica, pela insurreição do capital, pelo fim da história.

Se, como dizia Marx, a história do mundo é a história de como são produzidas as coisas, como é gerada a riqueza, então o capitalismo é de facto o fim da história, no sentido em que interrompe a relação do homem com a sua actividade. Se a produção é totalmente assumida e organizada por máquinas, então o homem torna-se num acessório da máquina. A história termina, porque termina a relação dialética entre a humanidade e o seu fazer. A imagem mais pura dessa relação, a do jogo e da brincadeira, é simplesmente aniquilada por essa tempestade de destruição que é o capitalismo. O fim da história não significa o fim da sucessão de eventos históricos, significa, pelo contrário, o fim da capacidade humana de fazer história. Significa, precisamente, o colapso político do projecto de emancipação humana.

O que sobra?

O antagonismo puro entre trabalho e capital. De um lado Sarah Connor, John Connor e T800. Uma mulher, mãe solteira, considerada louca. Um adolescente marginal, que nem estuda nem trabalha. Um robot desactualizado. Do outro, T1000, um robot multiforme feito de metal líquido.

De novo, o paralelo não podia ser mais evidente. Na forma contemporânea do capitalismo desvanecem tendencialmente todas as formas de mediação social e a “sociedade” torna-se apenas num compêndio forçoso de várias e múltiplas exclusões: Sarah – a mulher improdutiva; John – a população excedentária; T800 – a classe obsoleta. Perante eles, enquanto inimigo, o capital, que pode assumir todas as formas e todas as caras – tudo é capital, porque o capital pode ser tudo. E mesmo podendo ser tudo, que forma assume T1000? A da polícia.

Numa das cenas mais bonitas do filme, iluminada pelo sol reflectido nas dunas do deserto Mojave, vemos Sarah, John e T800 a procurar um antigo amigo para lhe comprar armas. É aí que se torna explícita a consciência partilhada da situação, e é aí que surge o núcleo político do filme, que desse momento para a frente se torna numa banal e xaroposa história de acção: na subsunção real, finda a mediação possível entre a classe operária e o trabalho, sobra a guerra civil de todos contra o capitalismo e as suas várias formas.

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