O que é que comemoramos quando comemoramos o 25 de Abril?


Longos dias têm 45 anos. Enquanto entramos na contagem decrescente para assistir à cascata celebratória que aí vem – e, bem assim, ao habitual lamento de que “já ninguém liga ao 25 de Abril”, ou à proclamação voluntarista de que “é preciso um novo 25 de Abril” – talvez seja oportuno revisitar esse cadáver esquisito cuja decomposição parece não ter fim à vista. É possível que as boas almas de esquerda sintam contrações no estômago ao ler as linhas que se seguem. Tanto pior.

Quem celebra o 25 de Abril não perde uma oportunidade de nos garantir que vivemos num regime democrático, no qual a vontade do povo é soberana e cada um se pode exprimir em liberdade, usufruindo da vasta panóplia de direitos consagrados numa das Constituições mais avançadas do mundo. Por outras palavras, quando sai à rua de cravo na mão, a esquerda propõe-se desenhar, em plena avenida, o grande logotipo humano de uma comunidade de destino que caminha, braços entrelaçados e voz em uníssono, em direção ao futuro. O moralismo de pacotilha nunca anda muito longe e colocar em causa este estafadíssimo ritual converte-se automaticamente num acto de desrespeito pelo sofrimento dos que lutaram para que aquele dia inicial inteiro e limpo fosse possível. Afinal de contas, quem é que, partilhando mínima e vagamente dos mais elementares sentimentos de “justiça” e “igualdade”, se atreveria a menorizar os sacrifícios de quem deu o melhor de si durante a longa noite do fascismo? Mais do que um imperativo ético, descer a Avenida na tarde de 25 de Abril é um emblema das nossas qualidades cívicas, a confirmação reconfortante de que sempre que alguém sonha o mundo pula e avança.

Dificilmente as leitoras desconhecerão a considerável quantidade de clichés e citações que é possível incluir num único parágrafo dedicado ao 25 de Abril. A data está de tal forma saturada de simbolismo que todo e qualquer evocação se arrisca a precipitar-se no abismo do lugar comum. O material disponível para a citação é virtualmente inesgotável, mas a canção de intervenção merece um lugar de destaque, tantas e tão sugestivas foram as vozes e guitarras afinadas pelo grande diapasão da liberdade. É certo que muito do que então se compôs mantém ainda hoje um inegável valor musical. Quem nunca trauteou “eu vim de longe, eu vou para longe” nem se sentiu melancólico a ouvir “foi bonita a festa pá”? Mas o próprio facto de a memória colectiva ter remetido o 25 de Abril para um lugar fora do tempo, convertendo-o na matéria-prima de um mito secularizado, deve colocar-nos de sobreaviso. Celebrar Abril, continuar Abril, relembrar Abril, cumprir Abril, a interminável sucessão de infinitivos que podemos juntar ao mês sugere que a data se converteu numa metonímia de tudo aquilo que é bom, justo e desejável. Ao ponto de nos interrogarmos frequentemente se saberemos estar à sua altura. Ao fim e ao cabo, quando medido pela bitola do multitudinário 1º de Maio de 1974, da Reforma Agrária ou do cerco à Assembleia Constituinte, o que é que podemos fazer, aqui e agora, para combater a ordem estabelecida, que não apareça inevitavelmente sob o signo do declínio?

O problema maior com a memória do 25 de Abril não se prende, evidentemente, com a sensibilidade “geracional” de quem veio depois desse outro tempo situado fora do tempo, em que o povo unido ainda não havia sido vencido. Pelo contrário, as razões que nos devem fazer olhar com algum cepticismo a amálgama de simplificação e nostalgia que compõe a narrativa para-oficial do 25 de Abril diz respeito ao lastro de pacificação que a acompanha. É que, à boleia do discurso da “resistência antifascista” e das “conquistas de Abril”, vem quase sempre atrelada a noção de que tudo isto poderia estar bem pior e que, feitas as contas, existe ainda um adquirido histórico, como que um património, a defender. Nunca anda muito longe a pergunta, insidiosamente retórica e a todos os títulos desonesta: mas, afinal de contas, preferem viver em democracia e ter a liberdade de dizer o que pensam ou numa ditadura repressiva em que a PIDE anda sempre à espreita? No fundo, pôr minimamente em causa a ideia de que “o povo é quem mais ordena” expõe-nos imediatamente à acusação de estar a branquear o fascismo.

Deixemos de lado tudo aquilo que fica de fora quando colocamos as coisas nestes termos, nomeadamente a remissão para um plano secundário da economia política e da luta de classes, ou seja, do facto de 45 anos de democracia terem sido praticamente outros tantos anos de restauração do poder da burguesia, após o curto abalo verificado durante o PREC. Não é propósito desta tímida incursão pela narrativa oficial do 25 de Abril retirar um só grama de interesse e validade ao que se passou durante dezoito meses de crise de Estado e intensa mobilização colectiva. Tão pouco se faz aqui pontaria à incipiente produção académica sobre o tema, que, estando porventura muito aquém do que sobre ele haveria a dizer, nem por isso é de desaproveitar. O que há de realmente problemático na memória liofilizada do 25 de Abril, ou seja, no conjunto de representações e auto-representações construídas pela esquerda portuguesa e que pairam sobre a cabeça dos seus “activistas”, diz respeito àquilo que não é explicitamente dito nem conscientemente pensado, essa matéria que permanece aquém do discurso e para além da reflexão, mas que não cessa de se manifestar em cada gesto e em cada escolha, desde o formato da manifestação ao tom do comunicado, desde a estética dos cartazes às intervenções no parlamento.

Ao presumir que o regime político em que vivemos contém ainda a marca genética do processo revolucionário, a esquerda reivindica para si a pertença a esta coisa que se assemelha vagamente a uma república. Uma vez que o parlamentarismo surge a esta luz como uma forma passível de ser preenchida por qualquer conteúdo, a construção de uma aritmética parlamentar capaz de materializar uma “política de esquerda” depende fundamentalmente da disputa da “opinião pública”. A rendição ao senso comum, ou seja, “aquilo que as pessoas pensam”, é apenas o corolário lógico desta ficção. Daí ao respeito incondicional pelas leis e pelas instituições vai um curto passo. É escusado ir muito longe para exemplificar as consequências práticas de tudo isto. A forma timorata  como a esquerda à esquerda do PS se posiciona face à violência policial decorre, quase automaticamente, da sua pretensão de vir um dia a sentar-se à mesa dos crescidos. Basta olhar para o comunicado do PCP a propósito dos “acontecimentos com origem em Vale de Chícharos“, para perceber quão difícil se tornou para aquele partido – e importa dizer que o Bloco de Esquerda não esteve muito melhor – assumir uma posição remotamente democrática, quando confrontado com filmagens de meia-dúzia de bófias a espancar um casal de meia-idade. Que não tenha havido uma única palavra sobre os direitos, liberdades e garantias dos cidadão é suficiente para percebermos o beco sem saída em que se encontra a esquerda. Sobre a dimensão de classe que subjaz a tudo isto é melhor nem sequer falar.

Mas o que é que isso tem a ver com o 25 de Abril? Quase tudo.

É sabido que o poder de choque com que o punk emergiu durante a década de 1970 decorreu sobretudo da sua obstinada vontade de escandalizar, exibindo, de forma concentrada e acelerada, tudo aquilo que constituía o negativo das sociedades norte-americana e europeia da época. Ao agitar suásticas, parodiar as câmaras de gás e apelidar de “fascistas” os regimes que haviam vencido a Segunda Guerra Mundial, bandas como os Ramones ou os Sex Pistols cuspiram na cara respeitável da democracia e do estado de bem-estar, no preciso momento em que começava a chegar ao fim, a paz podre ancorada em trinta anos de crescimento económico e pleno emprego. Formados na trajetória descendente dessa onda, os Joy Division levaram as coisas mais longe, explorando até ao limite do desconforto o jogo de citações, referências e evocações do nazismo, para com elas compor a asfixiante banda sonora de desespero e depressão que marca a cadência do nosso tempo. Subitamente, a hipótese de estarmos já a viver, não a uma curta distância da catástrofe, mas no seu âmago, apareceu como a única forma lúcida de encarar a realidade. Foi também contra a conversão do antifascismo numa retórica da normalização e do consenso, numa narrativa legitimadora do poder de Estado, que o punk explodiu em mil estilhaços, rasgando o véu reconfortante que a sociedade capitalista havia tecido em torno de si própria: o inimigo não se encontrava às portas da cidade, ele era a própria cidade e as muralhas que a rodeavam, um campo de concentração a céu aberto, cenário da desolação extrema e da anomia integral. Nas suas alusões aos desfiles de massas sincronizados, à crueldade dos assassinos que caminham tranquilamente entre nós, à irreparável dor das escravas sexuais das SS, as letras dos Joy Division identificaram a natureza do fascismo, muito para lá da figura histriónica do líder ou na tipologia ideal desenhada pelos cientistas políticos, despindo-o dos seus trajes históricos circunstanciais para no-lo mostrar na sua despojada e elementar realidade. Para o que verdadeiramente interessa, o fascismo é sobretudo a indiferença face ao destino do outro, a mole apatia face ao horror, o comprazimento numa existência obediente, a disponibilidade para colaborar com a infâmia. As minorias enérgicas mobilizadas para tomar conta das ruas e eliminar os indesejáveis, a sucessão de pequenos tiranos que se perfilam para comandar – sejam eles Bolsonaro ou André Ventura, Marine Le Pen ou Benjamin Netanyahu – não passam de um adereço estético que nos distrai do essencial. Nenhum desses pedaços de escória humana emergiria da obscuridade se não estivessem reunidas as condições necessárias para isso. E essas condições não são, ou pelo menos não são apenas, o desemprego de massas, o crescimento da desigualdade ou a inquietação conservadora face à dissolução das normas sociais. Quem olha para os cadáveres a flutuar no mediterrâneo, ou para o que resta após o bombardeamento de um hospital, para em seguida ir à sua vida, está disposto a aceitar o que quer que seja e a fazer o que quer que seja. E a quem prefere ignorar o fascista que há dentro de cada um de nós, sempre preparado para tomar a decisão lhe traga menos chatices, a única pergunta a fazer é: exatamente o que é que vais celebrar quando desces a Avenida da Liberdade ou a dos Aliados de cravo na mão?

Em 1986, longe iam já os ecos da revolução, os Pop dell’Arte juraram sair à rua se “um dia, os fascistas no poder se transformarem em balas perdidas na multidão”. Alguns anos depois, João César Monteiro não hesitou em classificar como folclore o ressurgimento da estética nacional-socialista, assinalando o facto de os verdadeiros fascistas se apresentarem como democratas. Em ambos os casos, tratou-se de deslocar o carácter da urgência: da antecipação da catástrofe que aí vem para a crítica intransigente do que já aí está. Neste momento perigoso, é imperioso fazer precisamente o contrário do gesto celebratório que reduz a ameaça a uma repetição daquilo que já foi. A única forma razoável de resgatar a tradição revolucionária ao conformismo que perpetuamente a ameaça é fazer uma revolução. Nada menos do que o comunismo nos tirará do buraco a que viemos parar.

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