«Matem os alunos com trabalho»: a (anti)praxe produtiva

Nuno C

Numa entrevista concedida ao jornal Público em setembro do ano passado[1], o atual reitor da Universidade de Lisboa (UL) apontou várias críticas à praxe académica. Quando questionado sobre a sua posição relativa à manifestação do fenómeno na zona do Campo Grande, junto à UL, terá confessado nutrir “a leve esperança que aquela praxe que ali está a acontecer seja de uma universidade privada”. Reconhecendo que se trata de “um assunto muito difícil de resolver”, o Magnífico Reitor não deixa de apontar uma solução: “O conselho que dou aos nossos professores para reduzir as praxes é: «Matem os alunos com trabalho». Se eles tiverem muito trabalho para fazer, não têm tempo para andar naquelas brincadeiras, às vezes muito desagradáveis”.

Tais comentários assinalam o aumento da proibição de praxes no interior das universidades, a qual contribuiu para que estas invadissem o espaço público e assim adquirissem uma maior visibilidade. Tal tendência constitui uma resposta institucional a inúmeros episódios de violência física e psicológica praticada durante praxes e que, após a morte de seis jovens na praia do Meco em finais de 2013, passaram a captar uma maior atenção mediática.

Neste processo, o papel desempenhado por grupos anti praxe, como o Movimento Anti Tradição Académica (MATA) na década de 90 e a AlternAtiva, mais recentemente, tem-se revelado fulcral. A organização de ações contra a praxe e/ou de iniciativas de receção a novos alunos sob uma lógica distinta da última, é expressão de uma crítica que não se limita a encarar a praxe como um epifenómeno, mas sim como parte integrante de um quadro económico, político e social. Neste sentido, o ritual da praxe, determinado pela obediência a códigos morais e a figuras hierárquicas, traduz um conjunto de relações sociais que pouco difere do tipo de interações verificadas noutros âmbitos deste quadro. À posição do caloiro perante o veterano, enformada por uma alegada tradição académica, correspondia o estatuto do aluno perante o emérito professor, iluminada pelo seu saber, ou a postura do operário face ao seu patrão, determinada pelo dever moral do  trabalho. Como tal, qualquer mutação de uma destas estruturas tende, por sua vez, a produzir consequências sobre outros elementos desta totalidade.

Nas últimas décadas, as relações de trabalho têm sofrido profundas mudanças, impulsionadas pelas revoltas contra as sociedades fordistas nas décadas de 60 e 70. Sob novos signos – flexibilidade, iniciativa, pró-atividade, empreendedorismo – as antigas estruturas produtivas perderam a sua centralidade e dividiram-se em várias, espalhadas por todo o mundo; a produção de valor passou a depender não só de sangue, suor e lágrimas, mas também de conhecimento, imaginação ou criatividade; e o emprego, outrora preso ao individuo numa base permanente, encontra-se agora envolto numa relação de incerteza.

A dependência do sistema de produção relativamente às qualidades imateriais acima referidas veio tornar obsolescente os velhos regimes de gestão das fábricas, assentes num poder rígido, burocrático e disciplinar. O governo das pessoas deixou assim de se basear menos em palavras de ordem e mais em mensagens de incentivo, desde que asseguradas as condições para que tais orientações constituam a única alternativa possível. A precariedade, deste ponto de vista, funciona como a garantia por excelência de contínuos aumentos de produtividade. Estes não são fruto de ordens emanadas por um capataz, mas sim da própria iniciativa do trabalhador, de cujo sucesso depende a manutenção do emprego ao final do mês.

À universidade não resta outra opção senão a adaptação a estas mudanças. À semelhança dos demais organismos públicos, funciona para o mercado, formando trabalhadores, e conforme o mercado. A maior procura por qualificações profissionais, aliada às expectativas de mobilidade social ascendente, conduziram a um aumento dos ingressos no ensino superior. É por esta altura, precisamente, que se verifica a introdução do pagamento de propinas, cujo valor  aumentará progressivamente ao longo dos anos. A partir de orientações emanadas da União Europeia, por via da Declaração de Bolonha, as universidades flexibilizaram os seus currículos, processo que envolveu a diminuição da oferta ao nível das licenciaturas, a aposta na pós-graduação (não financiada publicamente e com propinas mais elevadas[2]), a internacionalização e, por fim, a aproximação ao mundo dos negócios, através da realização de protocolos, por exemplo ao nível da realização de estágios curriculares, ou seja, do fornecimento de trabalho gratuito a empresas. Num contexto em que as próprias universidades passam a integrar um mercado concorrencial, com mecanismos de classificação e ranking baseados nos resultados em diversas áreas (investigação, propriedade intelectual, performance académica ou emprego), a praxe, nos atuais termos, acaba por se tornar contra-producente.  Como é possível depreender dos comentários proferidos pelo magnífico reitor da ULisboa, os rituais que lhe são próprios pouco se coadunam com as dinâmicas que atravessam os sistemas de trabalho e, por incumbência, as universidades.

Porém, e dado o papel desempenhado na integração dos alunos e no «vestir» da camisola académica, mais do que ao seu fim, pelo menos a curto-prazo, poder-se-a assistir a um conjunto de mudanças que, no final, possam garantir que nada mude. Após a tragédia do Meco, algumas associações de estudantes começaram a desenvolver praxes culturais, as quais envolvem passeios pela cidade, e solidárias, que passam pelo apoio a população idosa, trabalho em instituições sociais ou recolha de donativos alimentares[3], o tipo de ações que, segundo fonte do ISCTE (IUL), se destinam a “formar cidadãos competentes, mas com consciência social e cultural”[4]. A sua vantagem é, portanto, dupla: em primeiro lugar, e num contexto em que a concorrência passou a ser internacional, a imagem de marca suscitada por estes iniciativas é sempre melhor que a de caloiros, todos badalhocos, a chafurdar em merda de porco; em segundo, a prestação de trabalho voluntário é passível de gerar «capital humano», ou seja, qualidades imateriais que, mais tarde, poderão ser aplicadas no domínio produtivo. Importa mencionar que, em nenhum momento, estas praxes colocam em causa a relação entre caloiros e veteranos. O conteúdo sofre alterações, mas a relação essencial mantém-se inalterável: o estudante, eterno  objeto de uma série de dispositivos de gestão e avaliação, passará a ser morto não pela praxe, mas pelo trabalho.


[1]                «Praxe? “Matem os alunos com trabalho”, diz reitor da Universidade de Lisboa», Público, 27 setembro de 2018. Disponível em https://www.publico.pt/2018/09/27/sociedade/entrevista/-praxes-matem-os-alunos-com-trabalho-1845341

[2]                Torna-se assim possível compreender o quão pífio é o recente anúncio do fim das propinas nas licenciaturas, a acontecer num prazo de uma década, por parte do atual ministro da ciência e ensino superior Manuel Heitor. 

[3]          João Teixeira Lopes, João Sebastião, Elísio Estanque, João Mineiro e José Pedro Silva, Caloiros e Doutores: um estudo sociológico sobre a praxe académica em Portugal. Lisboa: Mundos Sociais, 2018.

[4]          «Caloiros trocam praxes tradicionais por ações de voluntariado», Observador, 26 de setembro de 2015. Disponível em https://observador.pt/2015/09/26/caloiros-trocam-praxes-tradicionais-por-acoes-de-voluntariado/.

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